segunda-feira, 15 de setembro de 2014

MOTELx 2014


Já na sua oitava edição (bolas, como o tempo voa), o MOTELx continua a afirmar-se com um excelente festival de cinema de terror, ainda mais precioso para aqueles que, por motivos laborais, não podem ir ao clássico Fantasporto e ficam por isso muito contentes com ter um festival destes por Lisboa. Tive sorte, ou pontaria, com os filmes que escolhi ver na edição deste ano. Se do ano passado apenas recordo dois filmes interessantes, A Promessa de António de Macedo e Lords of Salem de Rob Zombie, este ano todos os filmes que tenho visto são interessantes. Mesmo o mau filme da secção Quarto Perdido, que funciona como uma visita referencial à pequena história do cinema português de género. As escolhas pontuaram-se por critérios tão rigorosos como visitar referências históricas em  Society de Yuzna ou O Cerro dos Enforcados, descobrir filmes novos (Witching & Bitching, Open Windows), ir ao acaso para acompanhar amigos e até ter uma boa surpresa (Life after Beth) e, enfim, porque é de rigueur,  alinhar no cerimonial do encerramento do festival (Stage Fright) e ficar encantando com a sala apinhada do S. Jorge. Quem a conhece sabe que é uma sala de cinema à antiga, daquelas onde cabem pequenas multidões.

É sempre bom ver o S. Jorge cheio de fãs e participar nesta celebração anual do filme fantástico. Para o ano haverá mais. E esperemos que o investimento da secção Quarto Perdido em mais vertentes do que as cinematográficas na recuperação da memória do fantástico em Portugal se mantenha.

Society: Um clássico do body horror, este primeiro filme de Brian Yuzna é gloriosamente medíocre daquela deliciosa forma que só nos anos 80 seria possível. Más actuações, um festim de roupas e penteados que foram moda na delirante e felizmente distante década de 80. A história mistura inadaptação adolescente com elites conspiratórias que sugam num sentido muito literal os mais pobres. A melhor frase do filme? "I'm not paranoid, my fears are real." Termina com um festim orgiástico de carnes que se dissolvem e indivíduos que se mesclam enquanto sugam as carnes das vítimas. Se o vampirismo é elegante o sugar é repelente. Os efeitos especiais das cenas finais são surpreendentes pela qualidade.

Life After Beth: Confesso que ando sempre a fugir aos filmes de zombies nestes festivais. É que já não há paciência. Há para aí uns dez anos atrás achava-os interessantes. Delirei com o remake do Dawn of the Dead pelo Zack Snyder, redescobri com gosto a saga de Romero e ia-me divertindo com as zombie fanfics do homepageofthedead. E depois a coisa rebentou no mainstream, começaram a chover filmes do género, a coisa alastrou para a BD, romances, televisão e blockbusters. O problema é que normalmente quem vê um destes filmes vê-os a todos. O racismo fóbico implícito no gosto pelo decapitar ou rebentar com os miolos de hordes andrajosas que querem destruir a bucólica normalidade pequeno-burguesa esgota-se depressa. E, por favor, assumam lá que Walking Dead é uma banal telenovela com cadáveres putrefactos aos tombos. Quando descobri que este filme era de zombies, bolas, pensei logo. Mas a supresa é boa. Ao invés de seguir o caminho habitual de catástrofe apocalíptica segue uma estética de filme indie com diálogos de sitcom. Está mais próximo de Shaun of the Dead do que de Dawn of the Dead. O foco do filme está no drama do jovem protagonista, cuja namorada morre mas, misteriosamente, regressa à vida sem se recordar. Sabemos que se trata de uma epidemia de zombies, mas os personagens não. Entre os pais protectores e os assomos românticos de toque necrófilo a decadência vai-se acentuando e o bom humor do filme também. Já alguém selembrou de fazer um filme romântico com zombies, para mal da humanidade, mas esta zom-rom-com até acaba a funcionar muito bem. O que mais se aprecia no filme é a subtileza. Os mortos vão reaparecendo mas como todos estão demasiado absorvidos nas suas vidas nem estranham. O melhor é quando os personagens estão a discutir os seus dramas pessoais, no inimitável estilo de cinema indie de toque autobiográfico, enquanto ao fundo tiros dispersos ou explosões fazem notar que talvez as coisas estejam a descarrilar.

O Cerro dos Enforcados: No reduzido panorama do cinema fantástico nacional, qualquer obra antiga ganha interesse pelo simples facto de existir. À partida, este filme realizado por Fernando Garcia até prometia. Clássico a preto e branco dos anos 50, baseado num conto de Eça de Queirós, com um cuidado notável nos cenários que nos transportam para o Portugal medieval. O décor acaba por ser mesmo o mais interessante do filme, reflectindo a visão romantizada da idade média propagandeada pelo estado novo. O mesmo estilismo que infecta o padrão dos descobrimentos, as celebrações medievas da exposição do mundo português ou a estátua de Afonso Henriques em Guimarães é o que caracteriza os cenários e vestuário do filme, se bem que o matte painting não se esforça muito por ser realista. Mas estas imperfeições dão aquele encanto aos filmes de terror que tanto atrai os cinéfilos. A história é interessante, com um nobre ciumento, uma dama vitimizada e um garboso cavaleiro a formar um muito púdico triângulo amoroso, que um enforcado ao serviço de uma santa irá salvar. O que descarrila e torna quase insopurtável o filme é o estilo de representação, obsoleto já na época em que foi filmado. Os actores não representam, declamam com ímpeto as falas num português elaboradérrimo enquanto assumem poses hieráticas. Nem o zombie/enforcado se safa. Nunca vi criatura do além tão eloquente, articulada e gramaticalmente erudita. Estátuas com voz off fariam o mesmo efeito, até nas imóveis cenas de acção. O filme é mau, são duas horas de bocejo contínuo e ditos eloquentes. Parece que após este filme a produtora faliu e o realizador nunca mais voltou a filmar. Não admira, e creio que também tão houve grande perda. Foi visto pelo que é, uma referência histórica do cinema nacional de género. Algo que, como já observei, é tão raro que até um mau filme se torna intrigante.

Open Windows: A sinopse apelidava este filme do espanhol Nacho Vidalongo de "janela indiscreta do século XXI". Talvez o comparar com um clássico de Hitchock seja exagero, mas a ideia é certeira. A história tem um ritmo alucinante de plot twists em sucessão rápida, mas é no tema e na estética que o filme se torna realmente num hino visceral ao voyeurismo. O conceito de uma actriz seguida e envolvida numa trama complexa com hackers black e white hat acerta em cheio no hipervoyeurismo mediatizado das celebridades. Mas é na estética que o filme deslumbra, apostando num registo hipermoderno onde o ecrã cinematográfico se desmultiplica em múltiplas janelas, misturando imagem real com janelas de programas e fluxos de vidovigilância, chegando até à reconstrução do real em visão computacional a partir de múltiplos pontos de vista capturados por uma infindade de lentes, algo que visualmente funciona como um quadro cubista em movimento.

Witching & Bitching: Alex de la Iglésia dispensa apresentações como um dos grandes cineastas de terror espanhol. O seu mais recente filme não segue, no entanto, o susto visceral como caminho. A estética do horror está lá, entre o suspense e o gore, mas o objectivo é fazer rir os espectadores. O que resulta num filme diveritdo, a brincar com os problemas dos homens e das mulheres com um grupo de criminosos desastrados a envolver-se com um bando de bruxas muito à antiga nos vales tenebrosos do país basco. Visualmente espantoso, cheio de momentos de delírio surreal, mas a deixar uma certa sensação de humor forçado. O toque genial está na criatura adorada pelas bruxas. Não um fálico satã, ou uma elegante súcuba de estonteante beleza, mas uma vénus pré-histórica, gloriosa no grotesco das suas carnes volumosas. Belíssimos efeitos especiais, horrores a fazer rir e uma mestria assinalável no jogo de equilibrismo com os ícones e lugares comuns do género e o inevitável toque de Goya no momento fulcral.

Stage Fright: Nisto das sessões de encerramento a minha referência está no ano em que o perturbador e violento American Mary reduziu ao silêncio a plateia do S. Jorge. É difícil repetir um momento desses. O filme que encerrou o festival este ano seguia por outros caminhos, que se têm vindo a fazer notar nas várias edições do MOTELx. A abordagem ao terror segue com profunda ironia e bom humor. Stage Fright pode ser descrito como um cruzamento entre os slashers clássicos dos anos oitenta com psicopatas de facas afiadas à solta em acampamentos de jovens e as comédias musicais delicodoces ao estilo de Glee. Aliás, sendo preciso, se se misturar Glee com Friday the 13th com pitadas de Scary Movie, Phantom of the Opera e uma piscadela de olhos a Carrie já transmito a noção do que é este filme musical de terror. Sim, leram bem, um musical que ironiza a estrutura narrativa do género de filmes e séries em que um grupo de inadaptados se sublima através da música e dos palcos com doses fortes de terror gore que também ironiza as tropes do género.

Aproveitar o MOTELx para uma dose forte de filmes de terror tornou-se uma espécie de ritual pessoal de arranque de ano lectivo. Enquanto o sangue e as vísceras escorrem no ecrã vou-me lembrando da absoluta normalidade do dia seguinte. Pessoalmente acho que é uma excelente forma de carregar baterias mentais antes de um novo ano de aulas.

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