quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Ficções

La Ciudad, tres momentos: Ao mergulhar no catálogo da Sportula deparei com a prolífica obra de Martínez. Não sei nem me atrevo a considerar se será um grande nome da FC espanhola contemporânea, mas o primeiro contacto com uma variação às voltas com Drácula e Sherlock Holmes atraiu pela qualidade do texto. Este La Ciudad é mais ambivalente. Começa com um conto excelente, dá-nos um conto de qualidade média, e termina com um francamente medíocre.  Em Tarot, a ambiência classíca do jogo de cartas, a fazer lembrar A Rainha de Espada de Pushkin pelo foco numa atmosfera de jogo. No fim da noite, um consumado jogador de poker enfrenta um cavalheiresco adversário que o desafia para um jogo diferente. Apostam-se sonhos, e ao naipe habitual juntam-se cartas de tarot. O que se segue é uma noite de tensão, onde o jogador percebe que os pequenos nadas ao qual não dá valor é talvez aquilo que de mais importante possui. O ambiente tenso de um jogo de cartas onde o sobrenatural se imiscui está caracterizado de forma muito eficaz. Piensa lo que quieras é um conto mediano, sobre um jovem tímido que se apercebe que é telepata e consegue controlar a mente dos que o rodeiam. Com este poder manifesta o hedonismo de aproveitar tudo o que a sua discreta timidez lhe impedia de fazer. A história é contada pelo olhar do seu melhor amigo, sabido extrovertido, que sendo o único a saber o segredo do telepata é forçado a suicidar-se. Boa premissa, se bem que já muito vista, mas a narrativa previsível. Em En territorio ajeno um escritor encontra-se numa cidade estranha. E pronto. A prosa neste conto é tão má que não vale a pena ser lido. Há uma tentativa de criar algum mistério mas com uma falta de clareza elementar não se consegue perceber de onde vem este conto, e muito menos onde quer chegar.

Selfies: Mas primeiro, deixem-me fazer uma selfie. E por último. Lavie Tidhar brinca com as premissas clássicas do objecto amaldiçoado e da criatura assassina que persegue nos limites da percepção enquanto ironiza a epidemia de auto-retratos de telemóvel. A história é contada de forma fragmentada, reflectindo a aleatoriedade dos algoritmos de partilha de informação que se sobrepõem à leitura cronológica de sequências de imagens.

King Wen of Zhou and the Long Night: A ficção científica chinesa começa a chegar ao público ocidental, em grande parte graças ao trabalho incansável de Ken Liu como tradutor. Na China já ganhou massa crítica, à qual não é alheia o apoio explícito do partido comunista chinês para usar a FC possibilitando formas de compreender as rápidas mudanças pelas quais o país passa. Liu tem-nos legado contos de vários autores, e está para breve a publicação de The Three Body Problem de Liu Cixin, talvez o primeiro romance de FC chinesa a chegar ao público ocidental. A TOR publica agora um excerto do romance, que também funciona como conto individual. Nele, somos levados a uma China histórica com recortes de fantástico, onde a cronologia histórica se comprime e o planeta é assolado por ciclos aleatórios de normalidade e anormalidade. Durante os períodos normais, que poderão durar dias ou anos, a civilização progride como de costume, mas nos períodos anormais a atmosfera congela, condenando os habitantes à hibernação e os mais resistentes a tentar sobreviver e procurar soluções e respostas para um dilema cósmico que não conseguem compreender. Mas não se trata de um mundo paralelo, é sim uma simulação computacional que parece querer estudar padrões de desenvolvimento civilizacionais através do correr de variáveis e modificação de parâmetros. Talvez uma metáfora da longa história do império do meio, com convulsões e longos períodos de estabilidade que vistos ao fim de dois milénios mostram uma continuidade civilizacional inigualável na história humana. Um curioso misto de wuxia (o género capa e espada chinês) com FC de recorte cyberpunk.

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