terça-feira, 2 de setembro de 2014

Ficções

The Water That Falls On You From Nowhere: A difícil e corajosa afirmação da identidade sexual, complicada pela pesada teia de tradições asiáticas, é o tema desta história onde um jovem engenheiro biotecnológico sino-americano ganha coragem para apresentar o seu noivo a uma família que o vê como produtor de bebés para assegurar a tradicional continuidade do nome e do sangue. John Chu intriga ao colocar sobre os membros mais novos uma tremenda carga homofóbica enquanto os mais velhos apenas aceitam e sugerem que na biotecnologia está a solução para a continuidade famililar. O lado fantástico deste conto é dado por cargas de água gelada vindas de nenhures que encharcam no acto quem disser falsidades, por mais que as dilua em metáfora. Escrito numa prosa elegante, concisa e fortemente estilizada, este foi o conto vencedor na respectiva categoria dos prémios Hugo deste ano. E, depois de o ler, há que perguntar porquê. Bom conto, pertinente e bem escrito, mas os elementos de fantástico estão diluidos na temática. É mais slipstream do que fantasia e certamente que não é ficção científica. E o slipstream presente é muito ténue. Uma obra destas estaria mais confortável a criar ondas num festival literário mais mainstream do que os Hugos, tradicional bastião do fantástico e FC. O porquê da vitória tem certamente a ver com o desconforto sentido nas temáticas de género dentro da FC e fantasia. Note-se que esta vertente também é sentida em Ancillary Justice, que ganhou o prémio de melhor romance, se bem que as questões de género são apenas um aspecto de um livro que é um portento de space opera. A ficção de género é regularmente acusada de insensibilidade, machismo ou redutora no que toca à sexualidade, e boa parte é-o, mas não toda. Compreende-se que a comunidade queira valorizar ficção progressiva que queira ir mais além nestas questões. Só que, e aqui eu talvez esteja a ver as coisas numa perspectiva old school, os Hugos premeiam ficção científica. Apesar da qualidade literária, este conto tem pouco ou nada de elementos deste género literário. Certo, FC não é só tecno-utopias, cyber-narrativas ou hard SF e space opera, mas ao sobrepor a necessidade imperiosa se se mostrar progressista e aberta às suas raízes não se estará a desvirtuar? Note-se que com isto não estou a entrar em acordo com as parvoíces dos ranzinzas ultra-liberais ao estilo Vox Day que trollaram as nomeações dos Hugo deste ano. Estou apenas a reflectir que a vontade de agradar aos sectores progressistas traz consigo o risco de afastamento do que torna os Hugo os prémios de excelência na FC. Éticas e ideologias à parte, a ideia é que o galardão mostre o que de melhor se faz naquilo que é a FC, e este conto de John Chu não é fc ou fantasia, ficando-se por um erudito mas ténue fantástico. Daí não vem mal ao mundo, as fronteiras literárias estanques só interessam aos aguerridos defensores das suas quintinhas. E John Chu, como vão perceber mais à frente neste post, tem a capacidade de criar excelentes visões de FC numa prosa rigorosa e sóbria que, a meu ver, o torna herdeiro de J. G. Ballard pela frieza narrativa e de Ted Chiang pela espectacularidade discreta das suas ideias.

Unlocked: An Oral History of Haden's Syndrome: Serializado na Analog, Lock In é o novo romance sobre uma pandemia de Jonh Scalzi que, por coincidência macabra, está a ser editado no momento em que um surto viral de ébola assusta o mundo. No romance de Scalzi um vírus a princípio semelhante ao da gripe causa uma epidemia à escala global. Alguns dos infectados sobrevivem, outros não, e outros desenvolvem uma condição em que estão vivos e conscientes, mas incapazes de controlar o corpo. Não há cura, mas  combinação de redes neuronais implantadas no cérebro das vítimas com andróides controlados pela mente permite aos paralisados recuperar a vida. Scalzi traça neste conto um resumo, no estilo de história oral, contando através de depoimentos de testemunhas os primeiros sustos com a pandemia, o esforço investigativo para desenvolver curas, as descobertas das redes neuronais e próteses robóticas, as consequências sociais da nova classe de robots tele-operados, e os desejos de virtualidade daqueles cuja mente está presa num corpo inerte e dependem da tecnologia para percepcionar o mundo.

A Cost-Benefit Analysis of the Proposed Trade-Offs for the Overhaul of the Barricade: Um conto complexo de John Chu que vai revelando um worldbuilding soberbo que ultrapassa largamente os limites desta história. O planeta pode ser a Terra ou um qualquer outro, alienígena, abrigo de incontáveis civilizações desvanecidas à força por uma turbulência eterna. A barreira que protege os humanos é erguida e continuamente expandida por exércitos de engenheiros que materializam as peças das suas construções através do pensamento. Bibliotecas selvagens, contendo o conhecimento de civilizações perdidas, são domesticadas por denonados bibliotecários que trabalham em espaços de nove dimensões. No centro deste turbilhão temos um jovem e inseguro aprendiz de engenharia, filho do maior e mais genial de todos os engenheiros, que num momento de catástrofe descobre o seu real talento.

2 comentários:

João Campos disse...

Fiquei com a mesma impressão quanto ao conto do John Chu. Pessoalmente, achei o "Selkie Stories Are for Losers" da Sofia Samatar bem mais interessante, e a tocar um pouco nos mesmos territórios. E, claro, o "The Ink-Readers of Doi Saket" de Thomas Olde Heuvelt é divertidíssimo.

artur coelho disse...

há um certo risco nestas posições, mas há o ser progressivo e o querer mostrar que se é progressivo à força toda. se para receber elogios de inclusividade se deixa de parte o cerne de fc do prémio, a coisa desvirtua-se...