quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Leituras

AI, Robotics and the Future of Jobs: O mais recente relatório da Pew Research Internet Project, leitura sóbria sobre as vertentes de possíveis consequências da rápida evolução da robótica/automação e seu impacto sobre o futuro do trabalho. Se tem sido publicitado como uma extraordinaria predição sobre sexbots, desenganem-se, que o conceito só aparece uma vez nas sessenta e tal páginas com observações sobre a temática do relatório. Este espelha, de forma mais equilibrada, o alarmismo informado do vídeo Humans Need Not Apply que resume muito bem o pior que poderá advir do impacto entre cegueira economicistas e robótica. Se a transformação laboral irá deixar muitos empregos hoje desempenhados por humanos nas mãos artificiais de robots e software complexo, é também verdade que há já formas de optimização automatizada de fluxos de trabalho que tratam o trabalhador como uma espécie de peça descartável a utilizar apenas de acordo com o disposto na optimização just in time aferida ao segundo, como mostra esta brilhante peça do New York Times: Working Anything but 9 to 5.

O alastrar da robótica/automação vai de facto tornar obsoletos muitos empregos, e tocar em áreas que até agora se pensavam a salvo e domínio exclusivo da mente humana. Há um risco, óbvio, que os respondentes ao questionário da Pew sublinham: a economia não existe por si só, e ao condenar ao desemprego estrutural grandes camadas da população está também a eliminar os consumidores de que depende para sobreviver. Algo que neste momento de domínio da ideologia neoliberal sobre as consciências arrepia, porque sabemos que quaisquer escolhas irão privilegiar lucros a curto prazo e não a sustentabilidade dos sistemas sociais e económicos. Haverá escolhas, haverá evoluções do conceito de trabalho, e note-se que Hans Moravec, um dos pais da robótica, sonhava com um futuro onde o trabalho braçal e rotineiro ficaria nas mãos de entidades mecânicas enquanto antevia uma era dourada de ócio construtivo e desenvolvimento humano. Mas, como muito bem observa este colunista da Popular Science em Sex Bots, Robo-Maids, And Other Sci-Fi Myths Of The Coming Robot Economy,  é talvez prematuro imaginar o colapso da civilização ocidental sob o efeito de máquinas e software que apesar dos avanços rápidos ainda mostram muitas limitações. No entanto os engenhos do progresso são, como habitual, inexoráveis e se seja talvez cedo para entrar em pânico com as consequências sociais dos robots não é certamente cedo para debater o impacto de tecnlogias que se hoje nos parecem algo desengonçadas estão em refinação constante.

Suponho que o que realmente assusta e leva a este tipo de pensamento alarmado é a sensação de que no que diz respeito à ideologia dominante os seres humanos já são elementos descartáveis na economia. Sempre que se fala em reformas, racionalização de custos, reformulações e eficácias já se sabe que são as pessoas a ser cortadas. Quer através de precarização, redução salarial, despedimento massivo, deslocalização para zonas de mão de obra de baixíssimo custo. Sabemos, imersos como estamos numa crise global em que o óbvio enriquecimento de élites e o empobrecimento generalizado são notórios, que o valor colocado sobre o capital humano é apregoado como elevado mas é na verdade baixíssimo. A ideia de trocar pessoas por máquinas parece retirada dos sonhos húmidos de maximização de lucro do capitalismo mais selvagem. E até pode sê-lo, se, como observam Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee no livro The Second Machine Agenão forem feitas escolhas que são políticas e sociais que possibilitem tirar benefícios humanistas da tecnologia. O que é algo que nesta época de ganância descarada mal disfarçada sob ideologia neo-liberal e retrocesso de direitos civis e laborais nos parece algo muito ténue.

The King of the Islands of Refreshment: Geografias longínquas no limiar da ficção, do mito e da dura realidade. Uma pequena história de uma tentativa de criar um principado independente no distante rochedo de Tristão da Cunha torna-se num vislumbre às culturas cerradas dos duros habitantes dos locais isolados do Atlântico Sul. Ainda toca, muito ao de leve, nas bizarrias das micronações. Estas anomalias da história e geografia seduzem pela distância, não só física, mas do que acreditamos ser normal e esperado. Um artigo fascinante a ler na edição mais recente da revista The Appendix, que pelo índice de artigos merece uma longa e atenta leitura às fímbrias do futurismo.

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