terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ficções

Mapmaker: A ideia de um mapa cuja meticulosa representação do real acaba por o transformar num território anima um dos mais assombrosos contos de Borges. Esse mesmo espírito anima este muito bem talhado conto de Anton Stark onde um geógrafo contempla o mundo do alto da sua torre e o representa num mapa que, ao ficar pronto, fixou a tinta aquilo que no mundo real já há muito se desvaneceu. Distingue-se a clareza poética das palavras que nos mergulham no mundo tangível do conto.

The Somass Affair: A descoberta de um selo com mensagens secretas no cadáver de um operário morto nos esgotos de uma cidade semi-submersa mergulha um implausível par de sobreviventes com impressionantes capacidades técnicas numa aventura em que terão de travar uma ameaça bio-mecânica ressuscitada por cultistas obcecados. A sensação de imersão numa variante pós-apocalíptica do mundo ficcional de Eos criado pelo autor é muito boa. Talvez o que mais se destaque nesse conto é a capacidade de fazer visualizar um ambiente steampunk decadente, que quem conhece a obra deste promissor autor liga a uma evolução temporal do mundo ficcional do romance Downspiral. Aventuras em cidades semi-submersas com retro-tecnólogos que preservam conhecimentos por entre arquitectura decadente e combatem cultistas que pretendem reanimar robots de combate a vapor animados por intricados mecanismos a que essência de alma humana confere a faísca da vida é o que nos espera neste conto.

Timekeeper: Contar o tempo quando só isso resta. Reviver memórias traumáticas numa cidade em ruínas, de ruas alagadas, de edifícios desertos semi-submersos, antiga capital de glórias esquecidas pelo tempo. Resta um homem e um relógio, cujas engrenagens resistem cada vez menos à passagem do tempo. Mas o que sobressai da leitura é uma sensação de imersão em arquitecturas decaídas. Um conto de profundo sentido de ambiência passado no universo ficcional steampunk de Eos saído da imaginação de Anton Stark.

Avaria Fantasma: Uma variação intrigante sobre o abandono com um fortíssimo toque de uma curiosa mistura de FC clássica com cyberpunk. Um andróide descobre-se à deriva pelas ruas, abandonado pela família de quem sempre cuidou. É-lhe difícil perceber que foi descartado, trocado por um modelo mais recente, à semelhança de um fiel animal de companhia abandonado numa estrada por algum inconveniente menor, metáfora esta que fica clara logo no início do conto de Carlos Silva.

A Menina Que Não Digeria Livros: Como bibliófilo incorrigível não consegui deixar de sorrir com o humor mordaz deste conto de Carlos Silva onde a bibliofilia se metamorfoseia em bibliofagia literal. A menina que devora livros pelo sabor, estabelecendo modas e encantando a sociedade que a rodeia pela superficialidade literária alicerçada em quantidade e não qualidade é uma crítica pouco velada a um certo espírito que se sente nestas coisas bibliófilas.

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