segunda-feira, 14 de julho de 2014

Comics


2000AD 1889: Das melhores coisas de Dredd é a ironia distópica. Nesta edição termina uma divertida história sobre um Klegg que, ao contrário do estipulado no universo da mega-cidade, é um afável e pacífico alienígena mutante apesar do aspecto, e da fama, de sanguinário crocodilo. Caçado por uma infindável panóplia de caçadores urbanos, tem um momento em que as suas raízes de violência começam a despertar, mas bolas! Correcção gramatical acima de tudo. Uma apóstrofe trava a explosão para saurópode sanguinário. Spoilers: a história acaba bem para esta culto e afável criatura. Que é tão horrenda que o próprio Dredd considera, por breves instantes, ajudar os criminosos que a perseguem.


Captain Marvel #05: Kelly Deconnick deu o salto completo para a space opera neste quinto número da série. Já se tinha percebido desde os primeiros números mas ainda não tinha havido um momento tão óbvio, tão dentro da iconografia do género. É raro este descaramento num comic de primeira linha, e sublinhe-se que a DC cancelou recentemente Stormwatch, o seu título mais space opera. Suspeito que esta abordagem tenha a ver com a estratégia cinematográfica da Marvel e o brevemente a estrear Guardiões da Galáxia, onde esta Capitã Marvel também está metida. Note-se que isto não é um resmungo. A amplitude de horizontes e o divertimento puro da space opera é sempre bem vindo.


Magnus Robot Fighter #00: É muito interessante a abordagem de Fred VanLente ao reboot de uma personagem clássica. São mantidos alguns dos elementos libertários originais mas o argumentista mete-se com conceitos contemporâneos como a convergência homem-máquina, a quase religiosidade da singularidade tecnológica, a ideia de pós-humanos a manter viva a cultura humana que os originou, e até a expansão da inteligência artificial pela galáxia através de máquinas de von neumann, a que VanLente dá um carácter particularmente mítico com a linha narrativa de IAs que se tornaram conscientes e abandonaram o planeta natal, abrindo espaço às suas versões mais simples para de desenvolverem e recriaram um mundo onde aguardam pelo regresso daqueles que são quase os seus deuses. Ao contrário do original, aqui os robots não são um mal absoluto e inimigos da humanidade. Isso é-nos sublinhado neste one shot, em que acompanhamos a vida de um dos robots que é alvo sucessivo das sevícias dos vários robot fighters. Máquinas inteligentes, cujas consciências migram automaticamente para um servidor central quando os corpos mecânicos são destruídos. Transmigração digital, o velho sonho mítico da alma humana atingido artificialmente por inteligências artificiais que ritualizam uma cultura humana que idolatram como percursora, replicando-se como quase-humanos e vivendo vidas propositadamente banais. É curioso que esta premissa anda muito perto da do comic independente D4VE da Monkeybrains, embora este seja mais cómico e histriónico na abordagem.


The Life After #01: Não se trata bem do inferno ser as outras pessoas. É o purgatório, aqui imaginado como um loop infinito onde suicidas são castigados com o reviver continuamente aquilo que os levou ao suicídio, num limbo espiritual completo com salas de controlo de alta tecnologia. Não há infernos perfeitos, e uma alma penada presa numa eterna rotina burocrática descobre sem querer os pontos fracos das barreiras erguidas à volta das punições pessoais de cada indivíduo. Uma intrigante surpresa na fornada de comics da semana da Oni Press.

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