domingo, 20 de julho de 2014

Acasos


É bem conhecido o argumento da nostalgia como uma das explicações para o gosto pela ficção de género. Algo explorado pelos que coleccionam antigas edições e se apaixonam pelas iconografias do imaginário de outras épocas, que hoje nos parecem pueris mas pitorescas. Algo visível nas eternas discussões sobre o género e as épocas douradas que precederam a contemporaneidade. E algo que não surpreende. O chamado sense of wonder, esse carácter de surpresa e deslumbre absolutos tão valorizados por quem gosta das ficções fantásticas, está talvez intimamente ligado com as descobertas feitas na infância e adolescência, e uma incessante busca por replicar esse sentimento.

Há algo de indissociável de experiências precoces, quase iniciáticas, e a continuidade da busca da sensação do deslumbre. Não quero com isto dizer que essa seja a razão fundamental para os gostos das ficções de género. Para mim, são as elaborações de mundos ficcionais, os voos de imaginário e a especulação futurista informada que me atraem. Mas não deixa de haver um factor nostálgico. Não se esquece a sensação de deslumbre com o primeiro livro de ficção científica que realmente me tocou - as Crónicas Marcianas de Bradbury. A iconografia das velhas séries entrevistas na televisão a preto e branco persiste. A verosimilhança dos módulos Eagle, o alto modernismo arquitectónico de Buck Rogers, a excitação do combate espacial de Galactica são imagens mentais que persistem, mesmo sabendo que exceptuando nestes detalhes estes produtos mediáticos envelheceram mal, e o que parecia espantoso à época oscila hoje entre o ingénuo e o patético. Suspeito que até estou a ser simpático no qualificar das estruturas narrativas, efeitos especiais e estereotipagem dos personagens.

Mas confesso que tenho uma memória mais antiga, ou talvez contemporânea, os neurónios não são clementes com o tempo, de algo ligado ao horror. Recordo-me de ser muito jovem, ainda sem dez anos feitos, e passar as férias de verão na aldeia dos meus avós paternos. Recordo entrar na casa de um dos amiguitos da aldeia, na altura, o filho da gente rica da terra, ir à garagem para irmos buscar um qualquer brinquedo, e ter o olhar atraído pelas páginas lúridas de uma revista. Recordo vagamente de uma história com mulheres estonteantes semi-despidas, homens de armadura, e uma imagem que se fixou para sempre na minha mente: a de uma espada que corta um homem ao meio, com o pormenor da anatomia interna seccionada pelo gume. Não diria que fiquei traumatizado mas que a memória ficou impressa nos neurónios, lá isso ficou. Há medida que ia avançando pelas literaturas e bandas desenhadas de terror recordava essa sensação de curiosidade e fascínio. Mas nunca esperei reencontrar essa imagem específica. Até ontem à noite, quanto olhei com atenção para uma digitalização de uma antiga edição da Zakarella. Onde, para minha grande surpresa, reencontrei a vinheta que nunca esqueci. E ao fim de trinta anos, se não isso, lá perto anda, li finalmente a história que me despertou a curiosidade para os horrores clássicos. Trata-se de um trabalho de Sam Glanzmann, possivelmente para a Vampirella, Eerie ou Creepy, republicada em português na revista que incluía as bizarras ficções pulp de Roussado Pinto com Zakarella, uma bastardização muito surreal da vampira sensual do terror clássico na banda desenhada.

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