segunda-feira, 26 de maio de 2014

Comics


2000AD #1882: Sláine é algo de estranho. Talvez seja um gosto adquirido que me passou ao lado. Pat Mills escreve-o com uma ironia demolidora num estilo pesadão a lembrar o Elric de Moorcock, e tal como este Sláine é ambivalente. Mills pega nos elementos do banal comic de fantasia épica e recria-os com subtis inversões ao expectável. A coragem deste bárbaro heróico disfarça o ser terrivelmente desastrado, a sua cegueira sanguinária não distingue culpados de inocentes, e sob o seu machismo exacerbado oculta-se uma latência efeminada simbolizada no possante machado. É um subtil in your face do inteligente Mills aos lugares comuns da fantasia épica, até pela forma visceral como utiliza o substrato mitológico celta, habitualmente recuperado para literaturas mais calmas às voltas com benévolos druidas e mitos arturianos. Se Elric subverte a iconografia de Conan ou Bran Mak Morn, Sláine subverte-a por completo sem que a maior parte dos leitores de tal se aperceba. A sua hiperviolência infantil torna-o muitas vezes leitura tediosa. Felizmente, nesta nova série, Mills sublinhou a ironia numa aventura que nos leva ao coração dos mitos


E porque a 2000AD está em grande, Indigo Prime leva-nos a um mundo paralelo onde o sexo entre kaijus é uma atracção turística. Afinal, como é que pensavam que eles se reproduziam? Isto das bombas atómicas não explica tudo.


Magnus Robot Fighter #03: Belíssima ideia da Dynamite de colocar Fred Van Lente à frente deste reboot de um clássico dos comics. Este argumentista já anda a fazer um trabalho excelente e delirante para a Valiant com Archer & Armstrong e este Magnus não se fica atrás. Van Lente sabe equilibrar acção com humor e referenciação irónica, e isso nota-se muito neste terceiro número da série. É em essência uma longa perseguição onde uma caçadora humana de humanos que talvez não seja humana persegue Magnus com transmissão mediática em tempo real  por uma cidade pós-cyberpunk dominada por robots e inteligências artificiais que veneram o segundo advento da singularidade. Os leitores mais atentos notam a referência ao Blade Runner com o seu caçador de andróides que talvez seja andróide. A crítica aos ideais singularitários é bem humorada. E com pormenores deliciosos, como um robot Lebowsky a tchilar num pavilhão de bowling. Conhecem o filme, certo? Dispensa explicações sobre polinização cruzada pop-cultural. E este delicioso proletarianismo de robos industriais a discutir o que passa na televisão enquanto trabalham. Brilhante, esta. É algo que não se vê todos os dias, de facto.


Velvet #05: Estou a adorar o tom de absoluta reverência ao cinema clássico de espionagem deste Velvet de Ed Brubaker. Se o estilo replica a iconografia do cinema, a premissa subverte o machismo inerente ao género com a figura de uma heroína super-espia, que se mantém discreta numa relativa obscuridade mas ao ver-se obrigada a lutar pela vida enquanto deslinda uma conspiração mortal revela-se mais capaz e mortífera do que os melhores agentes masculinos. O estilo narrativo muito contido de Brubaker torna mais acutilante um comic já de si dos mais interessantes do momento.

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