segunda-feira, 12 de maio de 2014

Comics


2000AD #1880: Lagartos nazis a patrulhar Londres ocupada enquanto no interior do palácio de Buckingham os administradores germânicos contemplam os cadáveres plastinados dos últimos reis britânicos? Não, a 2000AD não entrou numa onda reptilóide ao estilo de David Icke (para quem não sabe, um alucinado que brada aos quatro ventos que somos governados por répteis alienígenas que se disfarçam sob a pele dos todo-poderosos). É o regresso de Indigo Prime, que é sempre de saudar. Esta série de longa continuidade distingue-se por ser talvez a mais surreal e psicadélica do alinhamento da 2000AD. Indigo Prime é uma organização que se abriga nas fímbrias dos espaços entre as diferentes realidades, combatendo a fauna selvagem que ameaça devorar continuuns inteiros e catalogando ou intervindo nos diferentes mundos paralelos. Uma bela desculpa para historias divertidas, insanas e sempre a desbravar com alegria as fronteiras do psicadelismo.


Esta edição da revista ainda nos reserva outras surpresas. A melhor delas é Pat Mills a ter um momento Miyazaki, com esta parada de monstros a atravessar a calçada dos gigantes a fazer recordar um dos momentos mais assombrosos do filme A Viagem de Chihiro. E ainda somos intrigados com um Tharg's Future Shocks num campo de concentração siberiano onde Korolev, castigado após falhanços do programa espacial soviético, descobre um mistério numa cápsula Vostok que se despenhou na taiga.


Archer & Armstrong #20: Ainda bem que esta série não perdeu o gás. Continua divertida, cheia de sátira aos lugares comuns dos comics e cultura popular, e escrita num ritmo invejável de comédia de aventura. Desta vez os intrépidos heróis (só para recordar, um dionisíaco imortal invulnerável e um ingénuo mas bem treinado jovem que se vê catapultado para a liderança da nata das sociedades secretas que controlam os destinos do mundo) envolvem-se com uma seita religiosa em Hollywood e descobrem-se num misterioso hotel perdido no espaço e no tempo onde as celebridades desaparecidas continuam vivas. A vénia de ironia à cientologia e aos mitos urbanos é tão forte que as cabeças da equipe criativa devem ter tocado no chão. Não é todos os dias que Jim Morrison encarna L. Ron Hubbard e a dianética se reencarna como a disciplina que esmaga o lagarto interior do cérebro. Se se recordarem que o líder da mítica banda The Doors se intitulava de lizard king percebem um pouco da salganhada bem metida de referências pop que caracteriza a série. E sim, Marylin, Cobain, Elvis e Jackson fazem as obrigatórias aparições neste arranque do arco narrativo Morrison Hotel. O título faz lembrar qualquer coisa, não?


Fatale #22: Quase, quase a terminar e Fatale revela as suas origens lovecraftianos. Não são uma surpresa, boa parte da série revela essa influência, mas finalmente somos levados à história do arqui-inimigo da fatal Josephine, uma criatura degenerada do além-espaço que se deliciou com uma encarnação como humano até se cruzar com a mulher fatal que dá o título à série. Se é bom a ver terminar em grande estilo, evitando a estagnação das continuidades eternas, confesso que terei saudades dos vislumbres da elegância sensual da mulher fatal que atravessou os tempos a enfeitiçar com a sua presença.


Moon Knight #03: Warren Ellis está no seu melhor nesta reinvenção do Cavaleiro da Lua, o personagem que poderia ser o Batman do universo Marvel mas nunca lá chegou pelo foco no misticismo. O argumentista caminha muito bem por entre a acção pura e o lado místico, conseguindo conferir uma profundidade inesperada e sublinhando a semelhança temática com o ícone da DC invocando a iconografia urbanística. E está a fazê-lo de forma muito sucinta, em histórias curtas e auto-contidas que evitam a tentação de um arco narrativo refundador que se arrasta ao longo de várias edições. Quanto ao lado místico... só Ellis se lembraria de invocar armaduras egípcias mumificadas para combater agressivos fantasmas punk. Aqui o punk está mesmo morto...

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