sexta-feira, 16 de maio de 2014

Comics: The Establishment; Pinocchio


Ian Edginton, Charlie Adlard (2008). The Establishment. Wildstorm.

Há produtos culturais pop que nos atraem pela sua essência de britishness, um fácil de identificar mas difícil de definir carácter excêntrico, elegante, bizarro ou surreal saído da Grã-Bretanha. É o caso deste The Establishment, um super-grupo secreto que defronta ameaças apropriadamente bizarras. Braço super-humano dos serviços secretos britânicos, tem como missão conter aquilo que deixa as forças convencionais impotentes. Na sua história enfrenta nano-máquinas inteligente venusianas que tentam cobrir o planeta de gosma verde e se disfarçam de humanos, tripulantes de uma missão a Vénus (e uma vénia de Edginton ao clássico Dan Dare; as criaturas selváticas predatórias que vivem no espaço entre realidades paralelas onde as almas dos falecidos deambulam. Mas os principais inimigos são interiores. A sua existência foi manipulada por um dos filhos do distante viajante do tempo de H.G. Wells que se refugia no futuro. Estes lutam entre si por razões bastante primárias de rivalidade fraternal e atravessam o espaço-tempo numa luta constante pelo domínio da realidade. Um quer recriar o universo à sua imagem, o outro quer impedi-lo não por se preocupar com os destinos do universo mas por simples pirraça. Intrumentalizados, é no final entrópico dos tempos que os heróis têm a derradeira oportunidade de se livrar de grilhões. E... é neste o ponto em que a série termina. Edginton tenta misturar o aventureirismo de The Authority (esta série pertence à mesma continuidade) com o carácter cósmico de Planetary, mas não consegue atingir os elevados níveis destas séries marcantes, apesar de alguns momentos e ideias muito intrigantes.


Winshluss (2008). Pinocchio. Albi: Les Requins Marteaux.

Suponho que há alguns anos atrás acharia este livro divertidíssimo. Esta versão do clássico Pinóquio inverte o bafiento moralismo do original de Collodi numa revisão que prima pelo absurdo e escatológico, com estilo gráfico a condizer. Interessante conceito, mas a sucessão de perversões a uma narrativa muito batida torna-se fastidiosa. Para terem uma ideia do que nos espera neste livro, Pinóquio é um robot criado com arma por um ganancioso Gepetto cuja esposa descobre usos inesperado para o nariz da criatura. Há um acidente erótico-explosivo, uma morte ocultada, um detective violento que tem como melhor amigo um gato morto que guarda no congelador, e toda uma sucessão de inversões ao clássico que inclui um dos vagabundos que captura o robot como terrorista fundamentalista ou um cruzamento com sete sádicos anões que se divertem a raptar raparigas para as vestirem de Branca de Neve antes de as violar. É BD na tradição escatológica de crítica social francesa. Diria que Vuillemin não seria mais perverso. Mas todo este épater les bourgeois, incidente num exagero monótono, depressa se torna cansativo.

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