quarta-feira, 5 de março de 2014

Disney no Céu entre os Dumbos


João Barreiros (2006). Disney no Céu entre os Dumbos. Livros de Areia.

Um dos mais incontornáveis textos do eterno enfant-terrible da FC portuguesa. Disney no Céu entre os Dumbos é revelador das influências e preocupações de Barreiros. Há um deslumbre com a iconografia e o lustre utópico da FC clássica, com os périplos espaciais, adereços de alta tecnologia sugerida mas ainda por inventar, com o brilho Buck Rogers/Flash Gordon dos futuros reluzentes no metal brilhante do foguetão e da raygun. Também se observa um deliciar com o cromatismo simples da estética Disney. Mas esta ingenuidade nostálgica com o brilho e aventureirismo da FC do passado é visto pela lente distorcida da consciência de que os sonhos mais puros são habitualmente cooptados por visões distópicas e que a tecnologia, sendo faca de dois gumes, acaba invariavelmente por cortar pelo lado mais inesperado e adverso às suas raízes optimistas. É deste conflito de visões que que vive esta novela. Sublinhe-se que não são antagónicas, antes, uma é extensão lógica da outra nesta mudança de século onde as visões de utopia colapsam sob o peso da história distorcida pela tecnologia.

O optimismo apocalíptico distorcido de uma cultura popular estilhaçada pervade todo este longo conto. A simpatia luminosa da iconografia Disney sublima-se nos perversos e horrendos Dumbos, alienígenas especializados em vampirismo mnésico, veneradores do cadáver congelado de Walt Disney, com uma paixão pelo antropomorfismo quadricrómico da cultura de uma espécie que escravizaram. Libertar a Terra de uma invasão alienígena levou à sua destruição e o que resta da humanidade foi preservado criogenicamente, como deliciosos gelados cujas memórias serão sorvidas pelos alienígenas. Os poucos humanos livres, que não se arrastam na superfície em chamas de um planeta bombardeado por asteróides, são servos forçosamente autómatos de uma espécie atípica que depende das criaturas que vai cooptando na sua deriva pelo espaço. A libertação amarga do herói é trazida numa aventura perversa, que o coloca numa relação obscena com uma fêmea portadora de crias de dumbos que não olha a meios para garantir a sobrevivência da sua prole, e que acaba aniquilada graças aos esforços de um vírus consciente implantado por vingadores humanos nos sistemas de inteligência artificial de um asteróide onde os sonhos de tecnologias avançadas coalescem numa elaborada prisão orbital. Não há fugas, não há vitórias nem finais felizes, apenas um longo prolongar das agonias dos sonhos luminosos da cultura popular e tecnológica.

Uma edição digital para leitura gratuita está disponível online: Disney no Céu entre os Dumbos.

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