quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Nome de Código Portograal



Luís Corredoura (2013). Nome de Código Portograal. Queluz: Marcador.

Confesso que se não fosse pela apresentação que Luís Corredoura fez do seu livro no Fórum Fantástico não daria por ele. As estantes de romance histórico não são o local que mais habitualmente assombro nas visitas às livrarias e não daria muita importância a um romance com Hitler e Salazar na capa. Mas a apresentação despertou-me irremediavelmente a curiosidade, pela paixão com que o autor falou do livro e por ter percebido que estava perante uma intrigante obra de história alternativa escrita e pensada com muita precisão. Ao falar das premissas em que assentou o romance o eclético autor tocou em pontos aparentemente tão díspares como vestígios arqueológicos de tecnologias da antiguidade clássica, divisões das SS, geopolítica dos anos 40 e a historiografia arquitectónica e arqueológica da zona de Mafra. E eu apenas apanhei a apresentação a meio.

Nome de Código Portograal é um romance ambicioso. O seu volume dá indícios ao leitor mais incauto, mas é ao mergulhar nele que percebemos o alcance da ambição. É uma história alternativa, um elaborado e bem montado e se...? de especulação bem alicerçada em dados históricos. Vive de uma história possível e duas opções justificativas para os eventos ficcionais, três narrativas que confluem num livro de especulação empolgante. Numa, documentos secretos em posse de um diplomata português contêm um segredo sobre o passado de Hitler que, se revelado, poderia abalar até à medula os pilares do nazismo. Sempre perseguido pelas forças alemãs, acaba por morrer na conquista germânica de Malta, mas os documentos chegam a Portugal pela mão dos familiares sobreviventes. Acaba nas gavetas de Salazar, e a sua revelação no final da guerra não tem o impacto esperado. A outra linha narrativa prende-se com a busca do graal, imaginado por Corredoura como um artefacto de tecnologia antiga já esquecida, uma esfera armilar cujos mecanismos rivalizariam com o mecanismo de Antikhytera. É uma visão interessante que mistura especulação informada sobre mitologia, tecnologia antiga e os mitos do Graal e dos Templários, transplantados para uma visão de Portugal com o seu quê de quinto império. Mexe também com a mitografia contemporânea sobre o apetite nazi por artefactos míticos e o lado esotérico das SS.

Por si, estes dois enredos já dariam bons romances. Há por aí muito livro popular que atingiu o sucesso só com alguns pózinhos dos muitos elementos destes géneros especulativos que Corredoura mete nestes enredos. Mas as verdadeiras histórias, que dão ao livro o seu maior valor e o destacam, tornando-o uma interessante história alternativa, não são estas. E sente-se que o autor se apercebeu disso ao longo do livro. Se inicia com um duplo focalizar nos documentos secretos e no graal, depressa se centra na narrativa principal, regressando pontualmente a estes temas para manter a estrutura narrativa mas com o seu quê de reflexão posterior. E por interessantes que sejam o livro passaria bem sem elas.

O livro brilha na sua narrativa central. A hipótese colocada é o que é que aconteceria se Portugal tivesse sido invadido pela Alemanha na segunda guerra. É uma hipótese bem estrutura, melhor pesquisada e desenvolvida com uma invejável precisão métrica. Corredoura revela-se um profundo conhecedor da história geo-estratégica da época e sabe muito bem onde desviar o curso da história para criar uma alternativa verosímil. Começa por Malta, postulando a sua queda após a heróica defesa. Empatando as forças britânicas com Rommel no deserto, Gibraltar é o passo seguinte para quebrar a hegemonia britânica no Mediterrâneo mas Hitler precisa do apoio espanhol. Portugal é a moeda de troca, dado a Franco para permitir a captura do rochedo gibraltino. E Corredoura não faz a coisa por menos: mete a Divisão Totenkopf, em descanso da Frente Russa, a entrar por Portugal dentro e a pulverizar as fracas defesas nacionais. Simbolismo não lhe falta.

O que se segue é um relato plausível de um país sob ocupação. Salazar refugia-se nos Açores com apoio anglo-americano, apostado em manter o porta-aviões fixo no meio do Atlântico. Lisboa recebe um governo fantoche encabeçado por Rolão Preto, que reúne as mais decadentes figuras da ala extrema do regime fascista mas que é de facto controlado pelo embaixador alemão. Às forças espanholas é entregue o controle militar do país mas é dos alemães endurecidos pela guerra que dependem. Se a resistência oficial cede facilmente, formam-se aguerridos grupos de resistência que unem diferentes facções, dos comunistas aos resistentes salazaristas, e são estes os que se tornam capazes de provocar incómodos às forças de ocupação. Há atrocidades, sabotagens, e até o pormenor tétrico do estabelecimento de um campo de concentração onde os judeus ibéricos e outros elementos incómodos são gaseados. Corredoura imagina o campo próximo de Torres Vedras e, pessoalmente, estou mesmo a ver onde, naquelas zonas desoladas entre Torres e o Bombarral.

João Barreiros tem fama (e proveito) de ser o escritor português mais danoso para a arquitectura lisboeta, rotineiramente destruída nos seus contos. Corredoura deixa Lisboa relativamente incólume mas arrasa com muito estilo Santarém e Coimbra debaixo de bombardeamentos da Luftwaffe, e ainda descreve violentas acções anti-guerrilha na Beira Baixa. Arquitecto de formação, presta muita atenção aos pormenores geográficos, o que transmite mais força à verosimilhança da narrativa. Isto é particularmente notável no que toca à zona oeste. Haja alguém que se lembre que Mafra não é só o convento. Descubram o Longo da Vila e percebem o porquê deste comentário. O pormenor de refugiar um personagem no moinho de água da Samarra é encantador para quem, como eu, gosta de fugir para essa pequena enseada.

O desvio à história é subtil e, eventualmente, o esgotamento germânico na frente leste e o dia D terminam a guerra da forma que sabemos. Portugal é libertado, e Salazar regressa para encabeçar um governo democrático baseado na desconfiança das forças aliadas na expressão das vontades populares. Corredoura não só percebe de história como de realpolitik, imaginando uma versão portuguesa do que realmente aconteceu na Alemanha com o processo de desnazificação ou de forma mais tumultuosa em Itália. Os desvios pontuais são certeiros e plausíveis. Malta poderia ter caído. A defesa da RAF foi lendária mas se tivesse sucumbido as vitórias da raposa do deserto poderiam ter ido mais longe. E Hitler esteve por um triz de se aliar com Franco, mas não o fez por perceber que teria em mãos outro Mussolini para sustentar. A fraqueza das forças portuguesas face às bem equipadas e endurecidas divisões alemãs é plausível, se bem que talvez nos ares as coisas não tivessem corrido tão bem. À época, entre doações britânicas para manter a aliança e os Açores, e aeronaves internadas por se extraviarem no espaço aéreo português, a nossa força aérea estava relativamente bem equipada e poderia causar algumas chatices aos Stukas germânicos.

Este livro é antes de mais uma boa história, bem enquadrada e contada. A construção das personagens é cuidada e Corredoura não hesita em eliminar personagens depois de ter criado empatia no leitor, o que é um toque raro na ficção. Se os rebeldes portugueses e os torcionários nazis são icónicos, não são superficiais e o romance consegue terminar com uma nota de redenção de um dos seus piores facínoras. Já as figuras de proa dos regimes-fantoche conjugam na dose perfeita de arrivismo político e postura moral patética. Se bem que nas contínuas peripécias em que as personagens principais se vêem metidas, entre perseguições das SS, acções de resistência, fugas por menos de um triz a batidas de landers resolutos, vasculhar de recantos do património arquitectónico esotérico e dramas pessoais o autor quebra um pouco a lente to tell how odd things struck odd people is to have an oddity too much com que C.S. Lewis analisava obras de ficção especulativa. Claro que a época onde se passam as histórias deste livro foi prolífica em odd things e odd people, por isso escapa. Mas por vezes o leitor mais incauto fica com a sensação que acontecem demasiadas peripécias ao intrigante grupo de personagens que está no cerne de toda a obra.

Senti durante a leiruta uma certa falta de edição. O livro é longo, e ganharia se se tornasse mais sucinto, embora honestamente não consiga dizer onde numa narrativa com grande necessidade de enquadramentos históricos. O descuido editorial nota-se particularmente na linguagem narrativa, com muitas passagens invadidas por coloquialismos de corrente de pensamento desenquadradas da linguagem literária. Outras vezes há algumas frases dignas de uma Thog's Masterclass que o olhar cuidado de um editor poderia tornar mais elegantes. É daquelas coisas que quem presta atenção aos livros e a quem os escreve vai notando. Por cá o trabalho editorial decididamente não passa por leitura atenta e aconselhamento que vá para lá da redução do número de páginas. Um livro é mais do que uma história, repositório de peripécias ou acumular de ideias. É tudo isso e a linguagem que o unifica, mas um misto de visão sacrossanta das palavras do autor com considerações mais venais implica que por cá o papel do editor seja secundarizado e abunde por aí muita obra a precisar de arestas limadas, quando não de ser totalmente limada. Aqui já estaria a entrar no domínio do modelo de negócio das vanity presses, que pelo que vou sabendo já começam a contaminar outras áreas de exposição cultural, mas isso são outras conversas. As imperfeições literárias deste livro perdoam-se graças à paixão pelos seus temas que se sente durante a leitura e pela erudição que sustenta estas aventuras ficcionais.

São pormenores importantes, mas não diminuem o alcance nem o interesse desta ambiciosa, bem estrutura e verosímil obra de história alternativa, campo em que possivelmente é a única obra portuguesa, pelo menos no domínios da exploração histórica do século XX. Não esperem voos ficcionais ao estilo Homem do Castelo Alto de P.K. Dick. Corredoura está mais na linha trilhada por Harry Turtledove do especular sobre os desenvolvimentos plausíveis de pequenas modificações cirúrgicas à narrativa histórica. A especulação é bem fundamentada e o conhecimento da época é de uma solidez invejável, a geografia do espaço ficcional espelha a dos locais reais. Lisboa sob as botas cardadas da Wermacht poderia ter acontecido, e Corredoura pega nessa premissa para criar um romance impressionante que nos provoca, leva a reflectir e ainda fala de muitos pormenores sobre a forja da Europa contemporânea que foi a II Guerra.

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