segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Comics


Apocalypse Al #01: J. Michael Straczinski, para além de ter um nome impronunciável e difícil de escrever bem à primeira, está de regresso aos comics. Se o seu Twilight Zone é morno, esta comédia de terror é mais prometedora. O lado bem humorado permite ao argumentista brincar com as tropes do género, embora o faça sem cair em simplismos histriónicos. Esta prancha em que um personagem sinistro apresenta o seu senhor como a escuridão final e a desmontagem do horror oco pela língua afiada da heroína da história. Coloca em perspectiva todos os momentos de suspense conseguidos com sombras, vozes portentosas e música apropriada dos filmes de terror de série B, não coloca?


Rover Red Charlie #03: Cães simpáticos aprendem a devorar galinhas e a saborear ovos crus. Pequenas atrocidades contadas pelo implacável Garth Ennis nas cores vibrantes da ilustração infantil, que é onde as visões bucólicas de animais com toque antropomórfico abundam. Ennis subverte e perverte as convenções do género com esta viagem por um mundo pós-apocalíptico que, neste episódio, até inclui um feroz bulldog que fez de um humano o seu animal de estimação.


Swamp Thing #28: Charles Soule conseguiu surpreender. A série parecia condenada a repetir até à exaustão os temas bem sucedidos de Alan Moore na sua lendária época nos anos 90, mas Soule soube, subtilmente, levar a personagem noutras direcções. Eliminou o parlamento das árvores, tornando a criatura num agente autónomo, e criou novos personagens, três sobreviventes da eliminação do parlamento, antigos avatares antecessores do corrente monstro do pântano que agora se descobrem em corpos humanos, centenas ou milhares de anos após terem sido transformadas em agentes do Verde. Só esta linha narrativa já dá pretexto para boas histórias, mas Soule ainda meteu outra personagem, uma assassina milenar cujo longo tempo de vida parece estar a aproximar-se do fim. Treinada através de artes ocultas pelos monges do Mosteiro do Monte de S. Michel para os defender das hordes violentas da era medieval, vagueia agora pelo mundo e alia-se ao monstro para que o segredo da sua longevidade morra com ela. Estou intrigado. Vou lendo a série mais por nostalgia para com a época dourada do arco american gothic do que pela sua qualidade, mas esta visão refrescante promete.


Trillium #06: Jeff Lemire anda a fazer um trabalho brilhante nesta mini-série que subverte com muita elegância as estruturas narrativas da ficção científica. Um homem do passado preso num futuro sem esperança mas com memórias de um passado que não aconteceu, uma mulher do futuro presa num passado que nunca existiu com memórias de um futuros que poderá não acontecer. Alienígenas misteriosos, e um templo que parece existir ao mesmo tempo na selvas do Iucatão e num planeta distante do sistema solar.

Viagens no tempo, encontros com alienígenas, aventuras na selva, história alternativa, space opera e até steampunk. Lemire não deixa muitas vertentes por explorar nesta história de paradoxos e tortuosidade mental, onde até a própria disposição das vinhetas na prancha serve para reforçar o seu carácter circular, de duas histórias que de facto são uma e ciclicamente se entrosam.


Über #1/2 Sieglinde: Gillen faz aqui a cena "história de origem" no seu promissor comic visceral sobre super-heróis artificiais e II Guerra. O argumentista decide dar um rosto a um dos battleships nazis, sob a forma de uma jovem alemã recrutada para o esforço de guerra cuja aptidão para melhoramento pós-humano lhe permite vingar-se da destruição de Dresden e da mutilação do homem que amou, piloto de bombardeiros na Luftwaffe. O toque wagneriano é apropriado à época. E sendo da Avatar Press, não esperemos contemplações. Até porque neste comic de Kieron Gillen não há distinção entre bem e mal. São todos igualmente violentos.

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