terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia - Volume II



Marcelina Leandro, Álvaro Holstein (2013). Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia - Volume II. Fénix Fanzine/Smashwords.

Como resistir a uma capa destas? A ilustração de Rui Alex está fabulosa e captura aquele sense of wonder que associamos ao género. Quanto ao conteúdo oscila entre momentos muito bons e outros menos bem conseguidos. Outro ponto digno de nota é o carácter transnacional de uma colectânea que reúne autores portugueses, brasileiros, espanhóis e argentinos. O que não se compreende é a decisão de não traduzir os autores hispânicos. É a mancha num trabalho de edição muito cuidado e bem sucedido. O castelhano não é uma língua de todo incompreensível mas não é muito fácil de ler para quem não a tenha aprendido. Mas vá lá, penso com expressão condescendente. Poderia ter sido pior. Poderiam ter aceite trabalhos de autores croatas ou japoneses. Isso sim seria um desafio ao leitor.

Os terrores do Halloween são a inspiração dos contos desta antologia. A homogeneidade temática está bem conseguida apesar da variedade de abordagens escolhida pelos escritores participantes. A inversão das expectativas criadas no leitor é um dos principais fios condutores das histórias que se inspiram directamente na iconografia clássica dos monstros imaginários, almas penadas e arrepios na noite profunda que sublinham a mística da véspera de todos os santos.

Noite Vermelha: Nuno Almeida parte de uma premissa bastante batida, a do monstro que aproveita as folias dedicadas ao oculto para caçar impunemente e que acaba por se torna presa de outros caçadores. Apesar de previsível a história está bem construída e o plot twist final remata-a muito bem. O conto sublinha que nem sempre se tem que ser inovadores e criativos à quinta casa para se contar uma história divertida.

Como Sempre os Pedidos das Crianças Começavam a Meio de Outubro: história simples que assenta na inversão de expectativas como ponto de partida. A prosa simples de Joana Andrade faz escorregar muito bem este conto curto.

O Fim: Luís Corujo consegue criar um aglomerado iconográfico em registo de poema em prosa. Como conto é fortemente difuso, mas a justaposição de imagética onírica e macabra é interessante. Ao ler, senti que estava a ver potenciais descrições de obras gráficas.

O Grande Disco Brilhante: Lima da Costa brinca com a mitografia cinematográfica de Drácula num conto em que o leva aos extremos do norte para, por entre a aridez da neve, se libertar da obrigação de recolher ao caixão ao raiar do dia. O final é irónico, como não podia deixar de ser. O problema do conto é que se vai construindo de forma eficaz mas é rematado com um artifício estilístico que seria mais expectável numa composição de um aluno do ensino básico do que num conto cujo desenvolvimento nos levaria a esperar melhor.

Cinema em Casa: tenho algumas dificuldades em perceber onde pára o horror neste conto de Ricardo Dias que nos coloca entre um grupo de amigos que passa a véspera do dia de todos os santos numa sessão de cinema em casa. Talvez as escolhas cinematográficas?

Os Verdadeiros Monstros: este conto de Vítor Frazão é um dos pontos altos da colectânea. Pega num tema bastante rodado, com um assassino em série a colidir com uma criatura sobrenatural. Destaca-se pelo ritmo e uso impiedoso da língua numa narrativa violenta, visceral e implacável.

Truco Sin Trato: do argentino Sergio Hartman vem uma história que joga muito bem com a iconografia do terror clássico de série B. Um tradicionalista que detesta o costume importado da noite de halloween colide com um grupo de adoráveis monstrinhos que ocultam por debaixo dos disfarces de múmias e vampiros o serem alienígenas apostados em conquistar o planenta.

Tempos Modernos: o empreendedorismo neoliberal cativou o mundo oculto dos monstros neste conto de Álvaro Holstein. A prosa sofre de um excesso de vírgulas que torna a leitura arrítmica.

Bob Esponja Pasó Corriendo Delante de mi Casa: um desfile de monstros provoca o caos neste conto de Francesc Julio.

Delirios Fantasmales: Samir Karimo lega-nos uma vinheta curiosa onde se discute literatura e sobrenatural.

Um Amigo: pequena e eficaz história de fantasmas onde Marcelina Leandro retrata de forma convincente que espíritos do além se podem esconder por detrás do disfarce do amigo imaginário de uma criança.

A Água que há de Correr: se a prosa de Ana Luiz necessitaria um pouco mais de elegância, o conceito é muito interessante e o seu desenvolvimento bem conseguido. O choque entre a tradição anglo-saxónica e os costumes ancestrais portugueses é levado a uma conclusão aterradora.

Noite de Bruxas: Ana Luz mexe muito bem com mitos urbanos do sobrenatural neste conto em que o conceito de espírito inquieto que se manifesta na estrada é explorado de forma visceral.

A Velha: outro dos pontos altos da colectânea. Numa prosa cerrada Inês Montenegro constrói uma narrativa que intriga o leitor e o leva a um plot twist final lógico mas inesperado.

A Peruca: Jorge Palinhos reconstrói o desiquilíbrio da visão apaixonada de um psicopata fascinado pelo cabelo de uma jovem funcionária dos correios. O plot twist é inevitável e a prosa do autor irrepreensível.

Já Sinto: quase me atreveria a dizer que Carina Portugal se inspirou no filme Dellamorte Dellamore para este conto onde um coveiro sobrenatural se dedica a manter os cadáveres mais inquietos nas suas campas. Escrito na prosa fortemente poética da autora, este é outro dos pontos altos do livro.

A Pergunta: Joel Puga constrói um conto muito sólido, com uma narrativa intrigante e um enquadramento excelente que nos agarra à história de dois aspirantes a bruxos que se dedicam a incantanções demonológicas para prever o futuro. É pena que estrague tudo com um final ridículo.

Jardim das Lamentações: conto confuso de Rui Ramos, que aposta na iconografia de terror mas esquece o desenvolvimento narrativo.

As Bruxas: no conto do brasileiro Lucas Rodrigues  na noite de todos os santos as fronteiras entre mundos tornam-se difusas e um incauto jovem é arrastado para um mundo paralelo dominado por bruxas tenebrosas.

Doces ou Travessuras: conto de João Rogaciano com forte premonição de grand guignol. Quase lá chega, com esta história de planos de sanidade duvidosa de um monstro de Frankenstein que só quer fazer amigos, mas cuja técnica de raptar vítimas incautas através de mirabolantes armadilhas se revela sempre contraproducente.

Pimentas Vermelhas: o montar dos elementos narrativos num tenebroso cenário coerente dá um tom fortíssimo a esta história macabra de canibalismo e demónios, escrito por Diana Sousa.

Noche de Espantos: curtíssima de Rafael Trechera que regressa ao ponto inicial do livro, com um encontro com criaturas que se assemelham aos monstros do imaginário mas conclui com um pequeno arrepio.

Esta antologia está disponível para leitura e download no Smashwords.

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