sexta-feira, 8 de novembro de 2013

As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III: Requiem


Filipe Melo, Juan Cavia, Santiago Villa (2013). As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III: Requiem. Lisboa: Tinta da China.

E assim termina a mais fantástica das recentes aventuras portuguesas na banda desenhada, num registo curiosamente introspectivo apesar de alicerçado numa premissa apocalíptica. O ritmo do livro é frenético, em curioso contraste com a intenção de encerrar a trilogia com toque reflexivo. Esperemos que seja realmente o final das aventuras destes personagens que, por mim falando, primeiro se estranharam e depois entranharam. Há uma certa simetria e sentido de conclusão numa trilogia, tríade de obras individuais que em si é uma obra completa. Por outro lado, não virá mal ao mundo se Filipe Melo e os co-conspiradores unirem esforços para mais aventuras destes personagens. Mas perder-se-á a ideia que este foi um momento marcante no panorama da BD portuguesa. Atendendo às qualidades narrativas de Melo e ao traço belo de Juan Cavia, esperemos mesmo que esta equipa se mantenha viva em mais projectos.

Lisboa é arrasada pela ameaça apocalíptica trazida por um fantasma do passado de Dog Mendonça. Anos após os actos heróicos que lhes granjearam uma bem devida fama e fortuna (depressa perdida por Dog Mendonça para os infernais burocratas fiscais) as voltas da vida voltam a reunir os personagens, mesmo a tempo de combater uma ameaça do passado que soltará as criaturas das trevas cidade fora e terminará com um decidido ataque de incongruentes insectos gigantes. E não vou entrar em grandes detalhes narrativos. Para isso recomendo a leitura o livro, que não é nada difícil de encontrar. Sublinhe-se que o bom humor de Filipe Melo está em alta rotação. O que ele congemina para o governo português é o sonho de 99% dos portugueses e note-se a elevada carga de simbolismo pela cena se desenrolar na escadaria do parlamento, rodeado de câmaras e jornalistas, acentuando bem o frenesi mediático de grandes indignações mas poucas consequências que se vive neste momento opressivo. Se este é o momento tocante pela sua contemporaneidade, o humor continua ao longo de todo o livro pela fina ironia dos diálogos que replicam o estilo dos buddy movies, uma das fontes de inspiração da série.

Esta trilogia é, antes de mais, uma profunda vénia à cultura pop das vertentes do fantástico baseada num profundo conhecimento do argumentista de alguma da mais marcantes ou obscura cinematografia, gaming ou literatura. Marca a ambiência da série em dois níveis, com referências directas ao terror de série B no texto e ilustrações mas também se faz notar na própria estrutura das obras, que se desenrolam como filmes. Neste Requiem intrigou-me a aparente dissonância entre o ritmo frenético do apocalipse e a linha narrativa nostálgica e reflexiva do passado dos personagens, até que me apercebi que é a mesma estrutura de boa parte dos filmes de FC de série B (e também de alguns de série A) que interpõem explosões de acção com momentos introspectivos.

Visualmente o estilo gráfico de Juan Cavia e a colorização de Santiago Villa continuam a dar à série um grafismo marcante mantendo um fino equilíbrio entre realismo fantástico e uma leve tonalidade de cartoon. Sempre me surpreendeu a forma como o argentino Cavia consegue interpretar Lisboa nas suas pranchas e este terceiro livro não é excepção.

Requiem finaliza esta trilogia ímpar no panorama nacional. Quase me atrevo a dizer que quero mais, mas no fundo não o quero. Como está é um símbolo do melhor que se faz no domínio da BD. Mas espero que estes autores nos continuem a surpreender com outras aventuras de novos personagens, com esta fórmula interessante de criatividade e homenagem às ficções de género. E se Dog Mendonça e Pizzaboy tiverem direito ao quadrado, penta e outros prefixos quantificadores, também cá estaremos para ler, sorrir e ficar deslumbrados.

1 comentário:

João Campos disse...

" Quase me atrevo a dizer que quero mais, mas no fundo não o quero."

Sinto exactamente o mesmo. Por um lado, gostaria de continuar a ler aventuras destas personagens durante anos; por outro, prefiro que terminem no auge. No mundo franchisado de hoje fazem falta mais Bill Wattersons.