quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Ficções

The Truth of Fact, the Truth of Feeling: Ted Chiang não é um escritor que tenha subido aos píncaros de popularidade no género de FC e Fantástico, mas é certamente um dos mais influentes. A sua prosa árida e lógica implacável, aliada a um estilo que não vive de adereços clássicos como robots, naves espaciais ou heróis amargurados à luta contra forças galácticas não é favorecida pelo lado mais popular da ficção científica. Mas o seu valor crítico e literário é enorme. Chiang escreve FC erudita, lógica, com temas e estilo muito próprios. E fá-lo de forma brilhante. É sempre um privilégio ler os seus concisos e geniais contos. Neste, o conceito McLuhanista (e não só) de tecnologia como elemento transformador do pensamento é posto a nu num conto fortemente cerebral. Num diálogo íntimo mas desapaixonado o narrador partilha com o leitor as suas preocupações com uma tecnologia de busca imediata por arquivos de life-logging que suspeita conter o potencial de modificar profundamente a forma como concebemos o pensar e recordar. A postura de Chiang não é o alarmisto dos Carrs e equivalentes, e o autor leva-nos aos dilemas do recordar com exactidão aquilo que a fisiologia cerebral tantas vezes altera sem que de tal nos apercebamos. Serão as nossas memórias uma gravação fiel dos acontecimentos ou estão alteradas pelos nossos pensamentos e sentimentos? Chiang sabe que a investigação recente mostra a fragilidade da fiabilidade da memória e a derrocada das certezas do narrador espelha a surpresa que sentimos ao ver provas de que as recordações aconteceram de forma diferente do que imaginávamos. Para mostrar a abrangência da tecnologia enquanto algo que subtilmente modifica a forma de pensar Chiang entretece outra história no seu conto, olhando para a influência do alfabetismo sob a cultura de uma ilha isolada no pacífico através do ponto de vista de um jovem indígena que ao aprender a ler e escrever percebe que pode fixar a verdade através das palavras mas que ao fazê-lo perde a ligação ao espaço mental da sua tribo. A mensagem é clara. Reagimos com excitação ou alarmismo a cada nova tecnologia que possibilita mudanças profundas na maneira como pensamos, mas quando nos alfabetizamos, quando a civilização se alfabetizou, algo mudou irremediavelmente. As tecnologias que criamos mudam-nos.

North American Lake Monsters: Um conto que se deixa levar pelos traumas e lutas interiores de um ex-presidiário recém-saído da prisão e os seus problemas de readaptação à sua família problemática. Há monstros nesta história, mas são os humanos. O monstro que lhe dá o nome só aparece no início e na conclusão, infelizmente, tornando este conto pretendente ao fantástico em mais uma normal narrativa literária.

The Bear Came Over The Mountain: Envelhecimento, alzheimer e as reminiscências de uma vida colidem nesta história contada pelo ponto de vista de um homem que deixa a sua mulher num lar para mitigar a sua demência. Um pouco longe dos meus tipos favoritos de narrativa, mas a prosa de Alice Munro enreda-nos no conto. Para comemorar a recente atribuição do prémio Nobel da literatura à autora a New Yorker abriu este conto ao grande público.

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