sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Comics


2000AD #1855: Edginton e Culbard não estão em tão grande forma neste segundo episódio de Brass Sun como no primeiro. Nota-se um argumento mais restrito e uma ilustração mais comedida, que se afasta da espectacularidade do primeiro episódio. O que não significa que o trabalho não seja de grande qualidade, mantendo pontos surpreendentes. Como esta biblioteca quase infinita, uma distorção da biblioteca de babel de Borges vista sob uma lente steampunk.


Samurai Jack #01: Foi uma das grandes preciosidades da animação infantil da Cartoon Network. Sublimemente estilizado num visual retro-futurista com influências de anime por Genndy Tartakovsky, as aventuras deste samurai transplantado por um demónio para um futuro longíquo que apenas deseja derrotar o seu arqui-inimigo e regressar ao querido Japão medieval valiam essencialmente pela estética de qualidade muito superior ao habitual na animação para crianças, boa parte dela feita a metro para encher espaços nos canais televisivos. A IDW decidiu insuflar nova vida ao personagem, mas nestas coisas a tarefa nunca é fácil. Sendo dedicada ao público infantil Samurai Jack não se distinguia pela complexidade e são raros os ilustradores que conseguem replicar na página o estilo de Tartakovsky. Esta nova variação não é excepção, apesar do elevado esforço do ilustrador contratado pela editora. O problema é que quanto pensamos na personagem idealizamos de imediato a iconografia visual original. É muito difícil ir além disso.


Mind MGMT #16: A delícia que Matt Kindt nos preparou para esta edição do seu comic transreal sobre poderes ocultos e espionagem fala directamente ao coração dos fãs de literaturas de género fantástico. Esta é uma das edições que se desvia da linha narrativa principal para expandir um pouco mais do universo ficcional da série. Somos levados ao mundo interior de uma jovem amante de livros que se apaixona primeiro pela obra e depois pelo seu autor. O personagem do escritor é claramente uma homenagem a Philip K. Dick, se bem que deformado para caber nos parâmetros de Mind MGMT. Se Dick tivesse na sua mente uma biblioteca de livros queimados na adolescência que tentou na meia idade passar ao papel alterando as palavras que estavam difusas na sua mente e pertencesse a uma organização secreta de espionagem mental... bem, não seria tão bizarro como a sua real biografia.


Numbercruncher #04: Pode um matemático brilhante dar a volta aos algoritmos do destino vigiados por um supremo deus contabilista? É o que descobrimos no final deste excelente comic escrito por Si Spurrier cheio de ilustrações evocativas de PJ Holden. Na sua essência trata-se da velha questão do livre arbítrio e dos destinos, a que Spurrier dá uma resposta muito curiosa.


Satellite Sam #04: O argumento convoluto e maçudo de Matt Fraction é uma desilusão mas para os fãs do traço de Howard Chaykin este é um comic obrigatório. A mestria do ilustrador revela-nos novas surpresas a cada edição. Nesta, Chaykin homenageia de forma clara e brilhante os estilos gráficos de Wally Wood ou Al Williamson na ilustração das histórias clássicas de ficção científica publicadas nos comics da EC.


The Unwritten #54: Termina, finalmente, uma das séries mais longas da Vertigo. Termina quando o seu poder crítico já se desvaneceu. Teria concluído na perfeição há quinze ou vinte edições atrás, quando a metáfora de Carey sobre o poder da ficção na imaginação humana ainda não tinha sido martelada até à exaustão. Pode-se dizer desta série que infelizmente cativou o público e foi por isso arrastada até à inconsequência. Carey esforçou-se por manter um elevado nível literário no comic, e as capas de Yukio Shimizu são uma nova referência da elevada qualidade gráfica da Vertigo. Percebia-se que para Carey a história que queria contar já tinha terminado à muito e que The Unwritten se tinha tornado uma caricatura de si próprio, paradoxal num título que era em si mesmo uma caricatura às vertentes mais populares da literatura fantástica. Termina agora num crossover morno com Fables de Bill Willingham. As palavras de Carey continuam potentes. Quanto à irrevogabilidade do final absoluto correm rumores que a série será relançada em janeiro do próximo ano.

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