quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Electric Warrior


Este é um comic bizarro, mesmo pelos padrões da indústria nos anos 80 do século XX. Escrito por Doug Moench e ilustrado por Jim Baikie, Electric Warrior é um elemento esquecido da invasão britânica na DC que mudou radicalmente o panorama conceptual do género. Ao contrário do Swampthing de Moore ou do Sandman de Gaiman, esta série acabou num esquecimento imerecido. Publicada pela DC, não chegou ao estatuto de prestígio da Vertigo nem tinha elementos capazes de ser inseridos na continuidade clássica da editora. Depois de se ler as aventuras do guerreiro eléctrico fica-se a perceber que este não tem lugar num panteão que inclui alienígenas com poderes conferidos pelos fotões solares ou cavaleiros das trevas. Apesar de ter uma intuição que um cruzamento entre Electric Warrior e Lobo seria intrigante.


A ficção científica e os primórdios da era digital influenciam a estética deste comic. O traço por vezes rude de Jim Baikie tenta recriar visões mecanicistas onde se cruza a iconografia industrial modernista, patente nas vastas cidades que remetem para a Metropolis de Lang, com o psicadelismo da na altura incipiente estética cibernética. Baikie não é muito bem servido pelo estilo gráfico dos comics. O seu estilo de futurismo expressivo que ajudou Skizz a tornar-se numa das grandes histórias de Alan Moore para a 2000 AD fica neste Electric Warrior totalmente esmagado pelas cores fortes.


Já Doug Moench esforça-se no argumento por trocar constantemente as voltas ao leitor. A série começa por nos mostrar um mundo futuro onde nas grandes cidades os privilegiados vivem no topo, enquanto a estratificação social se vai reflectindo até às ruas habitadas pelos Zigs, considerados escória humana pelas elites. Fora das cidades habitam os Prims, amantes da vida natural que abandonaram intencionalmente a tecnologia e a cultura urbana para regressarem ao estado de bons selvagens. Sendo um comic dos anos 80 claro que ainda podemos contar com bandos ameaçadores de mutantes deformados. A defesa dos privilegiados é feita pelos guerreiros eléctricos, robots semi-autónomos interligados no ciberespaço. Nada mau, para uns anos 80 que mal conheciam a internet mas já sonhavam com universos virtuais. Uma anomalia num projecto experimental provoca num deles, Lek-903, um surto de consciência que lhe desenvolve a vontade própria. Perseguido, refugia-se nos níveis inferiores da cidade, onde se apaixona por Kinsolving, uma mulher de idade avançada cuja memória lhe fala de tempos muito diferentes daqueles que julga viver.

Um robot apaixonado por uma anciã? Não temam, ainda ficará mais esquisito.

Num dos enclaves primitivos uma antropóloga citadina vai provocar tumultos no coração de Derek Two-Shadow, guerreiro-artista que tem um passado na cidade e gosta de passar os dias a pintar bucólicas quedas de água e a fazer amor com a loira primitiva. Digamos que viver ao natural tem as suas vantagens. A missão da antropóloga partiu da vontade do líder da cidade, que percebe que pode aproveitar o espírito libertário dos Prims para um projecto ultra-secreto motivado por uma descoberta inquietante do seu astrónomo.

Entretanto, Lek luta, foge e ganha poder como defensor dos oprimidos e eficaz combatente de robots. Acaba por ser capturado ao tentar libertar a sua amada das garras dos robots às ordens do líder da cidade. Também entretanto o líder lança uma ofensiva contra os primitivos para capturar espécimes masculinos. O conhecimento cibernético adquirido com os acidentes de Lek vai servir para criar uma nova geração de robots, desta vez mesclas entre homem e máquina, cyborgs semi-conscientes às ordens das elites. O que poderia correr mal? As peças de Lek são aplicadas ao corpo de Two-Shadows. Duas personalidades tão fortes mesclam-se e conseguem escapar ao domínio electrónico dos controladores. E sim, concluíram bem. Temos agora um poderoso cyborg com dupla personalidade... e para complicar, os amores com a velhota Kinsolving e a namorada loura de Derek. Há por ali uns bizarros momentos a três cujos contornos freudianos não escapam por completo aos leitores mais atentos.

Há mais. Temos revolta nas cúpulas da cidade, guerra entre Prims e robots, golpes de estado que são revertidos com uma união entre cyborgs, prims, zigs, mutantes e os antigos líderes da classe dominante. E temos o segredo que levou o líder da cidade a iniciar o programa de criação de cyborgs, uma ameaça que paira sob o planeta. Moench é implacável, e deixa-nos muito tempo a pensar que possivelmente este mundo futuro está ameaçado por um asteróide. Afinal vai mais longe. O astrónomo detectou uma vasta frota de naves espaciais que se dirigem para a órbita do planeta. E quando as naves nos são reveladas acontece isto:


Bizarro, certo? Afinal a Terra futura será invadida por forças americanas e soviéticas combinadas? Afinal não é a Terra no futuro? Afinal... a verdade final, quando revelada, é outra reviravolta conceptual brilhante. Doug Moench passa grande parte da série a convencer-nos que estamos numa distopia futura, e finaliza com um tirar do tapete ao leitor. Os habitantes deste mundo de desigualdades foram cobaias numa elaborada experiência científica. A longa história do planeta foi-lhes implantada hipnoticamente, e o planeta que julgavam ser a Terra afinal não o era. Dez anos depois do arranque da experiência, os cientistas voltam para analisar os resultados, reverter o controle hipnótico e fazer regressar os ratos de laboratório à Terra. Só que não contavam com o cyborg de personalidade digital e humana mesclada, para quem não é nada difícil travar a suposta invasão. Como bónus, depois de descobrirem a verdade sobre as suas vidas, os habitantes da experiência decidem continuar a viver as vidas artificiais. A série termina com um todo-poderoso Lek a embarcar numa nave para se dirigir à Terra para ensinar à humanidade umas lições sobre humanidade.

Electric Warrior é um daqueles personagens tipicamente resultantes da ressaca do sucesso comercial do filme Robocop. Subitamente, os cyborgs eram cool e o mercado foi invadido por dezenas de clones metálicos, lutadores sobre-humanos que mesclavam o homem com a máquina, ou robots violentos com bom coração. Recorde-se, por exemplo, Rom Spaceknight e a sua eterna luta contra os Dire Wraiths. Dos exércitos róbticos e semi-humanos que povoaram as vinhetas de banda desenhada, quase todos caíram no esquecimento. Este não foi excepção, apesar do argumento fortíssimo de um Doug Moench que a cada nova edição provoca reviravoltas narrativas que derrotam quaisquer expectativas criadas pelos leitores.

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