quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ficções

Himmler's GhostHimmler, o sangrento criminoso de guerra alemão que foi o principal arquitecto do holocausto, desilude-se quando invoca o espírito de um dos primeiros reis alemães. Entronizado pelos nazis como o antecessor germânico do carisma hitleriano, este rei fantasma que nada mais queria que ter os seus ossos esquecidos revela-se ser o oposto do que Himmler desejava. A fanfarra ideológica é mantida mas Himmler apenas deseja esquecer um espírito que, insistente, o assombra periodicamente, recordando-lhe a insanidade das suas acções e o carácter sanguinolento de um regime assassino. Jason Rolfe constroi este scherzo à volta de um dos mais importantes carrascos do século XX a partir de pequenos contos encadeados escritos com uma forte dose de humor negro.

Lich HouseEm There Will Come Soft Rains Ray Bradbury reflecte no imaginário catastrófico da Guerra Fria através de uma casa luxuosa totalmente automática que continua a funcionar nas suas rotinas normais após uma guerra nuclear que devasta o planeta. A impotência robótica da casa cujos automatismos programados são incapazes de compreender que o mundo que a rodeia e os humanos que serve foram aniquilados está espelhada nesta Lich House de Warren Ellis. Mas se a visão de Bradbury reflecte a limpeza aerodinâmica da space age Ellis tem um olhar pós-cyberpunk onde o lado visceral das tecnologias digitais e bio-engenharias colide com uma sociedade hipervigilante onde cada elemento está hiperconectado em redes globais das quais não podemos escapar. Ou podemos? Neste conto os sistemas bio-digitais da casa agonizam. Separados da rede global por um ataque cirúrgico de denial of service, os controles da casa assistem impotentes à sua contaminação por um vírus que a dissolve inexoravelmente. Paredes esboroam-se e o mobiliário feito de meta-materiais com memória esquece-se das formas que deve assumir. Um assassino puramente biológico, sem ligações em rede que o permitam identificar ou ter o cérebro remotamente desabilitado pelas forças policiais, move-se pela casa em liquefacção para liquidar a sua habitante. A morte tem de ser dupla: as balas têm de matar fisicamente o corpo de forma a que não seja possível a recuperação electrónica dos implantes de extensão mental para o mundo digital. Mais uma das fábulas bem pensadas encomendadas a escritores de ficção científica pelo Institute For The Future a imaginar o que será um futuro hiperconectado onde todos os objectos que nos rodeiam estão interligados em redes digitais.

The Litigatrix: A sensibilidade oriental de Ken Liu dá um toque exótico a esta variação do conto policial passado num reino imaginário que faz fronteira entre uma imensa China e poderosos reis Coreanos na era dos descobrimentos. História pura de detectives, com uma jovem personagem que coloca os seus poderes de dedução para resolver um assassínio que envolve um incêndio misterioso. A revelação final é genial: o que causou o incêndio foi uma lente, trazida por um mercador português que mostra a maravilha dos telescópios aos olhares conservadores dos habitantes deste reino oriental.

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