segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Dylan Dog

Tiziano Sclavi (2003). Dylan Dog. Roma: Panini.

Talvez seja este o livro essencial para se ficar a conhecer Dylan Dog sem ter de mergulhar na extensa história editorial. Editado pelo jornal italiano La Repubblica, colige algumas das melhores histórias criadas por Tiziano Sclavi para este personagem.

No seu conjunto, desvendam aquilo que a ficção de Sclavi aplicada a Dylan Dog tem de delicioso: um curioso sentido surreal, narrativas fluídas onde a sequencialidade linear é abandonada em prol de um esfumado onírico, fortíssima erudição no que toca a referências culturais que se traduz em centenas de detalhes que nos remetem para a tradição da pintura, do romance policial, das raízes do horror enquanto género literário, até do cinema. É também aparente outra das grandes características de Dylan Dog como um herói impotente, que se vê envolvido nas mais bizarras aventuras mas que apesar de as protagonizar reage como se levado pela maré. Dylan é o centro de um vórtice de terrores e fantasias que quando se manifesta o arrasta em direcção a uma conclusão que surge naturalmente. É um curioso contraste com personagens similares que usam os seus poderes para pôr fim aos mistérios das suas aventuras. Dylan não demonstra quaisquer poderes, não faz encantamentos arcaicos ou mostra inauditos poderes de dedução. Como detective dos pesadelos (indagatore del incubo no italiano original) acaba por ser mais um narrador interveniente, cronista casual dos acontecimentos, do que herói de acção que com os seus poderes derrota os adversários.

Esta impotência e o carácter cíclico e amargo dos seus amores são as duas grandes vertentes do personagem. A cada aventura Dylan encontra uma nova paixão, que termina normalmente de forma amarga ou violenta. Tudo isto contribui para o carácter melancólico do residente do número sete da fictícia Craven Road londrina. Personagem de juventude suspensa, com tiques de teimosia e fobias, vórtice de horrores oníricos e eterno construtor de um modelo de veleiro que nunca termina, vive numa casa antiquada rodeado de livros e artefactos acompanhado por Groucho, sósia em tudo do homónimo irmão Marx e cujas piadas secas e acções ridículas servem de curioso comic relief à melancolia do detective do oculto. Como curiosidade, note-se que o próprio nome do personagem é uma elaborada homenagem literária: Dylan vem do gosto de Sclavi pelo poeta Dylan Thomas e Dog do título de um policial noir de Mickey Spillane.


Attraverso lo specchio: homenagem subtil a Poe e Carrol, nesa aventura Dylan redescobre um amor antigo que está sob o efeito de um espelho maldito. Este provoca uma série de mortes misteriosas que oscilam entre o desespero suicida, a beleza assombrada ou um tranquilo desvancer na velhice. O reencontro entre Dylan e a sua antiga apaixonada dá-se num misterioso baile de máscaras que glosa admiravelmente The Masque of the Red Death de Poe. Sclavi não se esquece de colocar um misterioso personagem que, vestido de Morte, lança presságios ominosos sobre as futuras vítimas. O final é amargo. O espelho absorve mais do que vaidades, e suga a força anímica da antiga amante de Dylan.


Memorie dall'Invisible: nada é o que parece nesta curiosa hisória onde Dylan se envolve com um assassino em série com propensão para matar clientes de prostitutas. Dylan é contratado por uma madame que deseja proteger as suas meninas de trabalho. Todas as pistas são confusa e há apenas uma constante, o sentimento de invisibilidade por parte do verdadeiro protagonista desta história. Tem um momento particularmente notável em que Sclavi reinterpreta o célebre quadro Nighthawks de Edward Hopper, dando-lhe vida no preto e branco absoluto do fumetti.

L'orrore: o que é o terror, pergunta uma jovem jornalista com que Dylan vai inevitavelmente seduzir. Não há uma resposta, antes um divagar entrecortado por uma série de mortes violentas provocadas por um respeitável gentleman de chapéu de coco que castiga com extremo prejuízo as pequenas más-educações do dia a dia.

Gnut: talvez a mais surreal das histórias de Dylan Dog. Este envolve-se com uma aparentemente bela mulher que na realidade é uma fada e incorre na ira do seu protector. Este é um ogre armado com um afiado machado que, incapaz de pronunciar outras palavras que não um grunhido, deixa um rasto de cabeças cortadas no caminho até ao número 7 de Craven Road. A mistura onírica entre o real e o fantástico dissolve literalmente as fronteiras da percepção, com a casa a transformar-se numa floresta encantada de fantasia.

La Bambina: uma perfeita pequena história de fantasmas, contada do ponto de vista da criatura que não se apercebe que é a assombração. Dylan é atraído pelos gritos de uma criança e ao envolver-se apercebe-se que se trata de um espírito inquieto cujo descanso final não envolve redenção mas sim um recomeço do ciclo de terror.


La piccola biblioteca di Babele: pequena e bela homenagem de Sclavi a Jorge Luis Borges. Um bibliotecário monástico depara com uma praga de ratos que lhe devora as páginas dos livros nos quais está incumbido de escrever vidas e destinos. A sua solução é apagar o livro, apagando com isso as vidas e os locais nele contidos. De férias com uma namorada numa vila costeira, Dylan assiste estarrecido enquanto as pessoas que o rodeiam se desvanecem sem deixar rasto, até que a sua própria memória do local desaparece e todo o acontecimento é condenado ao esquecimento.

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