quarta-feira, 26 de junho de 2013

Un Uomo Un'Avventura: L'Uomo Del Sertão; L'Uomo Del Giappone


Hugo Pratt (1978). L'Uomo Del Sertão. Milão: Cepim.

O cérebro encanta-se com diferentes tipos de traço. Olhamos para desenhos complexos, elaborados, hiper-reais e maravilhamo-nos com a mestria transposta para o papel. Com os desenhos mais surreais ou expressivos o encantamento vem da intuição de interpretações diversas da realidade, paralelismos dissimilares ao nosso continuum consensual e das suas possibilidades ficcionais. O tipo de traço que mais desafia as áreas visuais cerebrais é aquele que é sintético, estilizado, que vive de poucas linhas e sóbrio uso de cor, não se perdendo em detalhes e ilustrando o real com uma simplicidade quase zen. Estimula a nossa capacidade de ver padrões até mesmo onde estes não existem, força o olho a obrigar a mente a preencher os espaços em branco levemente sugeridos pelas linhas e cores.

Senti isto pela primeira vez ao contemplar os desenhos de Hugo Pratt no seminal Balada do Mar Salgado e perceber o quanto as mais simples vinhetas, compostas por poucos traços a sugerir barcos e o fio do horizonte eram precisamente as mais reminiscentes das profundas vastidões oceânicas e de todos os voos imaginários à volta desta ideia. Quase me atrevo a dizer que o sucesso de Corto Maltese talvez se deva não só à personagem em si, pela aura de aventureiro que no nosso íntimo todos sonhamos ser, mas também ao traço esparso de Pratt que obriga a mente do leitor a imaginar, a construir por si o espaço visual ficcional intuído pela narrativa e imagens. São obras nas quais mergulhamos mais profundamente do que pensamos. Conscientes da narrativa, não nos apercebemos dos potentes mecanismos perceptivos colocados em marcha pelo contemplar do desenho e que nos levam a entrar profundamente na obra e reconstruí-la misturando a nossa percepção com as ideias do autor.

Esta reflexão vem a propósito deste L'Uomo Del Sertão, que nos leva ao Brasil da época dos cangaceiros numa história onde traição, morte e o ocultismo do candomblé colidem. Pratt, conhecedor das gentes e seus costumes, sabe do que está a falar e hipnotiza-nos com uma história onde as fronteiras do real e do além são difusas enquanto homenageia a figura dos rebeldes bandoleiros do sertão. E fá-lo com um notório constrangimento de meios, com algumas linhas e manchas de cor expressivas que transformam o sertão num espaço de imaginário sem limite.


Robert Gigi (1980). L'Uomo Del Giappone. Milão: Cepim,

Não é, na minha opinião, um dos melhores volumes desta série que ando em processo de descoberta. É prometedora a história de um samurai que na sua busca por vingança pela morte do seu daimyo e se cruza com vampiros nipónicos, samurais cristãos em batalhas sangrentas contra shoguns intolerantes e aldeias pilhadas por desertores. Infelizmente, não passa de um percurso narrativo sem fim, encandeamento de episódios com ténue fio condutor. Graficamente o estilo é conservador, banal, perfeitamente encaixado no cânone gráfico da banda desenhada.

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