quinta-feira, 18 de abril de 2013

Steampunk




Jeff Vandermeer, Ann Vandermeer (ed.) (2008). Steampunk. São Francisco: Tachyon Publications.

Na medida em que se tenta chegar a uma definição de absoluto sempre inatingível, esta antologia mostra a abrangência do steampunk enquanto estética literária. Não se limita aos adereços e autores habituais e mergulha com alguma irreverência epistemológica mais fundo em contos de autores que não estão associados ao género. Ao longo do livro é clara a vontade de transcender fronteiras de definição estrita e mostrar como a polinização cruzada de influências gera narrativas interessantes, pertinentes, acutilantes ou apenas muito divertidas. Se pegamos neste livro à espera de encontrar quatrocentas páginas de dirigíveis, engenhos a vapor, intrépidos cientistas e mulheres de corpete armadas com pistolas exóticas depressa somos desenganados. Apenas os autores mais puros vivem dessas estética, e não por acaso são os contos ao mesmo tempo mais representativos mas menos interessantes ao nível conceptual. O intrigante surge nas linhas cruzadas, nas influências estéticas de diferentes géneros que colidem em contos que despertam a atenção pela inventividade, estranheza ou elegante metáfora sobre os tempos contemporâneos.

Editado por Ann e Jeff Vandermeer, Steampunk arranca com um excerto de Warlord of the Air, texto clássico de Michael Moorcock, que antecede o surgimento do steampunk enquanto estilo literário assumido. Parte de um romance maior, deslumbra pela visão retro-tecnológica onde a estética mecanicista da primeira revolução industrial se alia ao utopismo tecnológico numa narrativa que, como muitas neste género, vive do conflito militar enquanto fio condutor.

A estética pura do género é-nos mostrada em Lord Kelvin's Machine de James Blaylock, um dos fundadores assumidos do género (ou, pelo menos, um dos que inteligentemente fundiram conceitos estéticos soltos no cinema, banda desenhada e ficção científica num sistema coerente). O conto é si é formulaico e levemente entediante. Contém a estética, remete para aquele ar neo-vitoriano reminiscente de Conan Doyle, Verne e Wells mas a história apocalítpica de dois cientistas arqui-inimigos não convence nem desperta mais do que um leve interesse.

A polinização cruzada começa a dar sinais de vida em The Giving Mouth. Uma das características intrigantes desta antologia é a forma como as histórias escolhidas raramente se conformam aos pressupostos da estética steampunk. Este conto de Ian R. MacLeod reserva-nos um convincente misto de fantasia e tecnologia num mundo medieval onde a tecnologia é indistinguível da magia. Forma um curioso contraste com o conto seguinte, A Sun in the Attic de Mary Gentle que é um aglomerado estético de elementos estéticos como dirigíveis, indumentárias de época e iconografia retro-industrial e pouco mais. É curioso notar como narrativas de puro steampunk são geralmente fáceis de esquecer apesar do enorme esforço dispendido no seu embelezamento e construção de um mundo ficcional plausível.

As misturas estéticas onde diversos géneros convergem recomeçam com The God-Clown is Near, conto de Jay Lake onde a mitologia tradicional do Golem e o futurismo cyberpunk cruzam-se num resgisto surreal. The Steam Man of the Prairie and the Dark Rider Get Down: A DIME NOVEL: Joe R. Lansdale surpreende com uma assumida narrativa pulp visceral que mistura descaradamente elementos das edisonades do século XIX com um híbrido catastrófico de Wells com Stoker. As viagens do tempo do vianjante de The Time Machine de Wells provocam rupturas no tecido do tempo e o viajante acaba por se tornar um vampiro degenerado que solta hordes de morlocks sobre a humanidade indefesa. Apenas os operadores de um gigântico robot movido a vapor parecem ser capazes de travar a ameaça vampírica, mas o colapso inexorável das linhas temporais está a condenar o universo à destruição final. Conto divertido e desprencioso, brinca numa leveza assinalável com pressupostos e elementos estéticos de diferentes géneros literários.

Um regresso às raízes é o conto The Selene Gardening Society onde Molly Brown deslumbra com uma bem humorada homenagem a Verne. Décadas após os acontecimentos da primeira viagem à lua, a esposa de um dos exploradores incentiva o regresso à aridez lunar porque está farta de ver o marido a dar-lhe cabo das plantas ornamentais. Perante a ausência de atmosfera na lua, o plano envolve disparar lixo orgânico cujo apodrecimento irá criar um solo capaz de suportar vegetação produtora de atmosfera. A impossibilidade de lançamento destas cargas nos canhões lunares é resolvida pela invenção atempada de meios de propulsão electromagnética. Um conto firmemente ancorado no cânone steampunk, que se destaca pelo sorriso que provoca.

Uma das grandes surpresas desta antologia é Seventy-Two Letters. Com uma prosa austera e certeira Ted Chiang constrói meticulosamente um inventivo mundo neo-vitoriano em que magia e tecnologia convivem. Um criador de golems autómatos investiga a possibilidade de criar robots cada vez mais capazes, e vê-se envolvido no estudo do desenvolvimento dos homúnculos que habitam no esperma e cujo crescimento uterino gera as novas gerações. O prazo de vida da humanidade parece estar a esgotar-se, mas a invenção da impressão cabalística de informação células humanas que lhes dá a chave para desenvolvimento autónomo permite um novo fôlego à humanidade. Chiang é brilhante nesta fábula, em que as incantações cabalísticas são uma metáfora mal disfarçada para a engenharia genética e as tecnologias de informação. O conto é implacável, desenrolando-se com uma métrica rígida em que cada nova peça do puzzle narrativo cai atempadamente no seu lugar.

Segue-se The Martian Agent, A Planetary Romance onde no espírito trans-géneros que anima a ficção fantástica contemporânea cabe a Michael Chabon um conto que mistura elegantemente a narrativa pulp juvenil com história alternativa e os elementos estéticos da cultura a vapor. Obrigatoriamente, conta com dirigíveis e andarilhos mecânicos de combate. Já Victoria dá-nos outro toque trans-género, com o cyberpunk inspirado na genética de Paul di Filippo inserido na estética steampunk numa era vitoriana onde o progresso tecnológico traz perigosas maravilhas, intrigas palacianas conspiram para derrubar a jovem rainha Vitória e uma salamandra humanóide faz das delícias dos homens que com ela se cruzam. A subversão deste conto é espelhada em Reflected Light, conto curto de Rachel Pollock que nos coloca no outro lado da imaginação steampunk, com uma observação sobre as classes proletárias que sobrevivem das résteas tecnológicas de um mundo brilhante para o qual trabalham arduamente mas que raramente vislumbram.

A outra grande surpresa da antologia é Minutes of the Last Meeting, conto de Stepan Chapman que ganha o prémio de narrativa mais insana da colectânea. Na Rússia czarista retro-futurista de 1917 as mais mirabolantes invenções da tecnologia a vapor coexistem com nanotecnologia consciente. Todo o país é vigiado por um cérebro electrónico avançado que através de minúsculos robots omnipresentes vigia tudo e todos mas que graças a uma intriga bizantina é levado à depressão e ignora pequenos indícios do que se vem a tornar um atentado em que rebeldes socialistas conseguem assassinar o czar. Nos estertores da morte o czar ordena o lançamento do seu maior símbolo de poder: uma ogiva atómica lançada por um míssil semi-consciente que pede desculpa porque a ignição dos seus motores carboniza quem estiver por perto. A explosão atómica provoca uma temida reacção em cadeia em que o hidrogénio e oxigénio na atmosfera se incendeiam, reduzindo o planeta a uma bola de cinzas. Contado com um ritmo impecável em diferentes pontos de vista e um aceno estético muito profundo à belle époque.

Cabe a Neal Stephenson encerrar a antologia com Excerpt from the Third and Last Volume of Tribes of the Pacific Coast, um conto que apesar de distante do estilismo steampunk partilha de alguns elementos do género. Num futuro pós-apocalíptico, algumas nações tradicionais unem-se para proteger o acesso à quase miraculosa nano-tecnologia. Exploradores das tribos semi-selvagens que herdaram o que foi o antigo território dos Estados Unidos são capturados por uma aliança de tribos libertárias que deseja capturar os segredos da nano-tecnologia e libertá-los para todos. Nanotecnologia e apocalipses singularitários têm pouco a ver com steampunk, mas Stephenson vai buscar as rígidas estruturas sociais e a veneração por sistemas políticos monárquicos que caracteriza o género.

Nem só de ficção vive este livro que também tem alguns ensaios sobre diferentes vertentes do género. Jess Nevins dá-nos uma erudita reflexão sobre as raízes do steampunk nas narrativas pulp do século XIX. Vai mais longe do que o esperado, deixando de lado as óbvias influências de Wells, Verne e Conan Doyle para olhar para géneros esquecidos como a aventura juvenil tecnológica, as edisonades, o western e as narrativas onde a civilização ocidental é ameaçada por perigos orientalistas. Rick Klaw olha para as influências do género no cinema, televisão e cultura de jogos com uma longa lista de séries, filmes e jogos onde bizarramente afirma que a primeira obra cinematográfica do género foi o clássico Voyage dans la Lune de Meliés. É uma estranha inversão da relação causa-efeito. Para terminar Bill Baker faz uma breve introdução ao steampunk nos comics, destacando algumas preciosidades como Luther Arkwright, Five Fists of Science  ou o brilhantemente ilustrado Scarlet Traces.

Steampunk vai muito além dos limites do género, olhando para a mistura de influências como forma de transcender fronteiras em narrativas pertinentes. O resultado é uma obra abrangente que cobre influências estéticas que antecedem a definição do género, elementos de aplicação pura e obras mistas onde diferentes estilos colidem gerando intrigantes explosões de criatividade. Nem só de dirigíveis ou engenhos a vapor vive o steampunk, e esta antologia é disso sintoma.

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