quarta-feira, 17 de abril de 2013

Comics: Return of the Dapper Men, Son of the Gun


Jim McCann, Janet Lee (2010). The Return of the Dapper Men. Los Angeles: Archaia.

Uma ilustração absolutamente deslumbrante e um argumento incompreensível colidem neste livro com uma vaga inspiração steampunk. O conto gira vagamente à volta do tempo, do crescimento e de amores impossíveis entre um rapaz e uma andróide numa cidade de fantasia onde uma invasão de senhores bem vestidos reinicia a contagem do tempo. Uma premissa curiosa que se perde numa narrativa vaga, indecisa entre episódios líricos e uma história muito mal explicada. O que vale são as ilustrações deslumbrantes de Janet Lee, num registo iconográfico que mistura influências steampunk com lirismo gráfico onde as cores vivas mas suaves sublinham um carácter ingénuo. Return of the Dapper Men é um livro que vale a pena ler visto mas não lido.


Alejandro Jodorowsky, George Bess (2004). Son of the Gun Vol. 1: Sinner. Nova Iorque: DC Comics/Humanoids.

Alejandro Jodorowsky, George Bess (2005). Son of the Gun Vol. 2: Saint. Nova Iorque: DC Comics/Humanoids.

Jodorowsky deixa o seu lado violento à solta nesta história escatológica de corrupção, lealdade criminosa, morte e redenção com contornos edipianos. Abandonado enquanto à nascença por ter nascido com uma cauda, Juan é adoptado por uma prostituta anã e vive numa lixeira alimentado por cães. A sua arma e uma capacidade implacável para aplicar violência são as virtudes que o levam de líder de gang criminoso a segurança pessoal de um primeiro-ministro a soldo de um general corrupto que controla um pais curiosamente similar ao México. O que se segue é um rol de violência extrema, com torturas e assassinatos a rodos em nome do dinheiro e manutenção de privilégios. A história complica-se quando Juan é destacado como segurança pessoal da mulher e do filho do primeiro ministro. Sedutor e seduzido, cativando também o jovem filho, Juan acaba envolvido numa cilada criada por uma mulher que sabe que o marido violou e matou a filha e encontra finalmente forma de se vingar. Antes de morrer, o primeiro-ministro revela um segredo destrutivo: num espelho visceral do mito de édipo, Juan seria o seu filho, que tal como na história grega foi abandonado, seduziu a mãe e matou o pai. Segue-se uma fuga pelos desertos, que termina numa cidade perdida onde a mãe de Juan decide expiar os seus crimes prostituindo-se e obrigando Juan a humilhar-se mostrando a sua deformidade. Jurando vingança, o filho do primeiro ministro persegue-os com um fiel segurança que tem uma paixão homossexual por Juan. Não o encontram, mas encontram a mãe e chacinam todos os clientes da cantina onde esta se vende. Novamente em fuga, Juan atravessa os desertos e acaba numa igreja índia, onde a sua cauda leva os nativos a acreditar que se trata do seu santo padroeiro. Inicialmente enganando os crentes com falsos milagres, Juan acaba por se convencer de que é um representante divino e exige ser sacrificado para que volte a chover. A história termina com a sua redenção através da crucificação, ritual que espelha a história de Jesus e através do qual o criminoso violento se redime de todo o mal. Termina como começa: as primeiras pranchas destes dois livros mostram-nos a crucificação, e toda a narrativa é uma longa descida aos infernos que inexoravelmente leva o personagem a um final libertador após todas as vicissitudes de um trágico destino.


Com argumento convoluto e Jodorowsky a fazer o seu melhor de sincretismos mitológicos numa narrativa intencionalmente chocante, os dois volumes de Son of the Gun também se destacam pelo grafismo de George Bess, equilibrando o realismo sujo com uma paleta de cores que nunca varia dos vermelhos e laranjas, tons quentes que contribuem para o ar sufocante destes livros.

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