quinta-feira, 4 de abril de 2013

Grandville: A Fantasy



Bryan Talbot (2009). Grandville: A Fantasy. Milwaukie: Dark Horse.

Uma intrigante e inteligente ucronia que mistura o antropomorfismo com a estética steampunk. Dois séculos após a capitulação perante Napoleão a Inglaterra recupera a sua independência como república popular socialista, mas será sempre o alvo favorito dos ódios oficiais do todo-poderoso império francês. A investigação da morte violenta de um obscuro funcionário da embaixada inglesa leva um inspector da Scotland Yard a atravessar de comboio a ponte que une as ilhas britânicas ao continente. É em Grandville, capital do império, centro nevrálgico e luminária do continente que se oculta uma conspiração ao mais alto nível que visa despoletar uma guerra contra a Inglaterra para cimentar o poder vigente, abalado por uma sociedade que começa a dar sinais de querer mudanças profundas. Os métodos resolutos do denodado inspector vão pôr cobro a todas as conspirações e abrir a porta à revolução.

Bryan Talbot apropria-se do antropomorfismo, artifício da literatura infantil, para esta história de policial conspirativo que parece homenagear especialmente o clássico Wind in the Willows de Kenneth Graeme, com toda uma sociedade animalesca que replica de forma ingénua o tecido social inglês. Grandville replica esse artifício com uma caricatura dos estereótipos do carácter fleumático e excêntrico que associamos aos ingleses. Apesar de centrado em criaturas antropomórficas, os humanos não são deixados de parte. Surgem como uma espécie não muito inteligente, utilizada como mão de obra não especializada para trabalhos manuais originária dos arredores de Angoulême. Os conhecedores de banda desenhada compreendem a piada, e ainda mais deliciados ficam ao ver o Spirou a aparecer no meio da bicharada falante.

O toque steampunk arranca com a influência confessa de Albert Robida, ilustrador francês do século XIX conhecido pelos seus delírios futuristas desenhados com a sensibilidade estética da época. Claro que Robida não é um percursor da estética steampunk, mas a influência da sua iconografia faz-se sentir no género e Talbot homenageia-a com um retro-futurismo assumidamente steampunk directamente inspirado nas mais delirantes ilustrações do autor. Para que não restem dúvidas, chega a criar um estaleiro para as torres Robida, glosa irónica às torres gémeas que inclui atentados e conspirações tenebrosas. Os leitores podem esperar muitos dirigíveis, autómatos, arquitectura fin de siécle e decorações arte nova com a cor do latão.

Grandville é uma excelente surpresa. Mistura de policial com espionagem com um estilismo antropomórfico de sabor steampunk, parte de um argumento sólido e de uma intrigante construção de mundo ficcional para mergulhar o leitor numa realidade ucrónica onde os animais falam e a tecnologia imaginária do século XIX faz mover o mundo.

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