segunda-feira, 18 de março de 2013

Terror português

Como parte do ciclo Novos e Novíssimos do Cinema Português o Espaço Nimas organizou uma noite de terror, dedicada a mostrar algumas das mais recentes e arrepiantes curtas metragens do género realizadas em Portugal. A sessão contou com a presença dos cineastas, que falaram um pouco sobre as suas escolhas, processos criativos e dificuldades de trabalho num país em crise, onde os apoios financeiros rareiam e a corrente dominante do pensamento cultural olha com algum desdém para manifestações culturais de género.



A projecção arrancou com Sangue Frio de Patrick Mendes. Obra de forte carácter experimental, graças à estética Super 8, é um tenebroso conto gótico sobre sangue e obsessões. Sem querer estragar surpresas, o argumento centra-se sobre o sacrifício fatal de uma mulher apaixonada para dar vida a um espantalho que acaba por se revelar o seu doppelgänger. Filme simples e austero, vive da ambiência soturna e da estranheza da história de contornos vagamente sexualizados e eria um filme mais eficaz se fosse um pouco mais curto. Alonga-se excessivamente nos momentos com óbvia conotação erótica de transfusão sanguínea entre a mulher e o espantalho. Ao ver esta curta a associação com o terror clássico da EC Comics ou da Creepy foi inevitável, pela temática soturna e volte-face final da história.


Trabalho profundamente pessoal, exercício estético de animação a partir de desenhos do mexicano Thomas Ott, Os Milionários de Mário Gajo de Carvalho parte de uma história tétrica onde a ganância gera violência e a sede de dinheiro deixa um rasto de sangue. A obra distingue-se pela estética de animação experimental, a fugir de técnicas tradicionais e quase a tocar no campo dos motion comics. Talvez a grande personagem desta curta seja o traço, patente na texturização pesada das imagens e no riscado expressivo que gera a forma, luz e sombreados.


Uma excelente surpresa que desconhecia por completo foi o violento e divertido grand guignol Linhas de Sangue de Manuel Pureza. Descrito pelo autor como uma boa desculpa para mostrar malta aos tiros e exorcismo de meses passados a filmar uma desenxabida série televisiva, é uma divertidíssima homenagem aos filmes de série B americanos, ao cinema gore e às tendências retro-viscerais de Robert Rodriguez ou Quentin Tarantino. Actuações levadas ao limite do exagero, argumento bizarro quanto baste, balas e sangue a rodos, frases-chavão memoráveis e um cuidado estético muito pronunciado são as características deste filme que ganha pontos pela belíssima utilização do fetiche lugar-comum das enfermeiras boazonas e os seus uniformes reveladores, sem esquecer os cientistas loucos e heróis de dedo leve no gatilho.


Vencedor do prémio MoteLX de 2012, A Bruxa de Arroios é uma deliciosa curta metragem de Manuel Pureza que brinca elegantemente com o macabro e a rotina nas relações amorosas envelhecidas pelo tempo. O trabalho de adereços e cenários é maravilhoso, com um marcante tom retro que não destoaria nas casas dos pais da nossa geração. A fotografia é cuidada e a história conta-se com ângulos de câmara e linguagem cinematográfica em estado puro. Nem uma palavra é proferida pelos actores, toda a comunicação vive de gestos, expressões e movimentos de câmara. Se o argumento é bizarro, a realização inventiva e a mise en scéne cuidada, é a genial interpretação de Rita Blanco que faz disparar esta curta de elevadíssimo nível.

Na sessão de perguntas no final da projecção Pureza referiu a necessidade de se submeter aos ditames de do mercado dominado pela indústria televisiva e os seus espartilhamentos conceptuais. É paradoxal que os meios financeiros que permitam atingir produções de grande qualidade estejam ao serviço da banalidade. Mas no caso deste realizador eu diria que o tédio de realizar telenovelas está a ser uma boa escola cinematográfica. Liberto dos espartilhos, nota-se na qualidade das suas curtas, precisas, bem realizadas, visualmente cuidadas, com valores de produção que vão muito além do habitual neste género independente.


Para terminar em grande, a irreverência e o bom humor do colectivo Os Clones contagiou o auditório. Em destaque estavam as curtas Papa Wrestling, Blarghaaahrargh e Banana Motherfucker. Estas curtas caracterizam-se pelo gore divertido, vivendo de efeitos especiais manuais que gastam litros de tinta vermelha, situações extremas que provocam um misto de gargalhadas e expressões de nojo nos espectadores e a insanidade de argumentos bizarros que violam os limites do expectável. Banana Motherfucker, por exemplo, é talvez o filme gonzo português por excelência. O grupo distingue-se pelo espírito totalmente independente, apostando na paixão de criar cinema com orçamentos reduzidíssimos, conceitos divertidos e produtos finais de ir ás lágrimas com gargalhadas.

Sabemos que o cinema de terror em Portugal mexe, dá sinais de vida, que há criadores apostados em realizar e que apesar das dificuldades de se ser cineasta (ainda mais, cineasta de género) neste país mantém um nível de produção de grande qualidade, realizado com poucos ou inexistentes meios. Sabemos também que há públicos, como se observa pela crescente popularidade de festivais específicos como o MoteLX ou iniciativas do género do Fórum Fantástico. Mas estes filmes ficam-se pela circularidade de serem criados para um público que os consome em eventos dedicados. Vão-se repetindo em festivais, mostrados a um público conhecedor que se deleita mas não é surpreendido pelas obras. Falta algo mais, algo que leve estes filmes a públicos mais alargados. Aqueles que apostam na web para divulgar o seu trabalho mostram um dos caminhos possíveis. Resta o canal 2, aquele que ninguém vê, para divulgar um pouco mais este género de obras.

É fácil criticar, apontar as falhas, visionar e indicar com dedo acusador os problemas estéticos, sobressaltos narrativos ou baixos valores de produção. Mas é fazendo que se aprende. Nem todos os filmes serão geniais,e perfeitos, mas convenhamos, quantos dos filmes que nos chegam do exterior são realmente geniais e perfeitos? As obras primas não se fazem à primeira, e a experiência adquire-se trabalhando. Resta reflectir que reais condições há por cá para desenvolver trabalho deste género. Bem, certo. Sejamos realistas. Que reais condições há por cá para desenvolver qualquer género de trabalho criativo... ou, nos tempos que correm, que reais condições temos por cá para investir e criar algo para o futuro. A resposta é negra, o que ainda dá mais valor àqueles que se recusam a baixar os braços.

A cultura por cá é um bicho estranho. Há coisas que são vistas como sublimes, importantes, de valor. Culturas de género são abertamente rejeitadas pelo establishment, que as ridiculariza ou descarta como algo que não vale a pena, que não é profundo ou suficientemente erudito para sequer se aproximar dos cânones da grande cultura. Os públicos discordam. A chama da diferença cultural é mantida viva por criadores dedicados e fãs apaixonados, com leves olhares de curiosidade do mainstream. Ou então... serei eu paranóico por pensar assim?

A sessão dedicada pelo Espaço Nimas teve a virtude de reunir obras díspares, de diversos registos e diferentes meios de produção. No global, conseguiu mostrar várias vertentes do cinema fantástico português e partilhar com o público algumas das agruras, paixões e opiniões dos seus autores. Por um lado, acaba por ser mais do mesmo, uma sessão dedicada vista pelo público habitual. É melhor do que nada. Apesar de não sair do circuito de fãs do género, tem o grande mérito de divulgação de um género específico inserida dentro de um arco maior dedicado ao que de mais recente se faz no cinema português.

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