terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Teatro Rápido - Janeiro de 2013

É um conceito novo, ao mesmo tempo contemporâneo e intimista. O Teatro Rápido aposta em peças curtas, temáticas e de autores e actores novos com um calendário exigente de representações diárias. Situa-se em pleno Chiado, em salas anexas ao silo automóvel que foram reaproveitadas como espaços de teatro austeros, sem qualquer decoração e nem sequer um disfarce do cimento rugoso ou das paredes negras de betão pintado do parque de estacionamento. Esta austeridade é curiosamente acolhedora, em directa oposição aos conceitos clássicos de espaços de entretenimento público que ocultam a estrutura arquitectónica sob os mais díspares elementos decorativos. Mas aqui temos apenas o betão nu, os actores e a representação. Esta simplicidade é cativante e o seu intimismo pode ser um pouco aterrador para anti-sociais da minha laia, uma vez que a relação de proximidade entre espectadores e actor se resume a uma distância de poucos centímetros. Não estamos confortavelmente sentados a apreciar (ou a tentar não adormecer). Estamos imersos no espaço cénico e no universo ficcional da peça.

Atento à hipermodernidade contemporânea, este teatro afirma-se rápido. É quase relâmpago, um blitzkrieg representativo concentrado em quinze minutos de mergulho em universos ficcionais. Ao espectador cabe a escolha de passar duas horas saltitando entre peças, com pausas para dois dedos de conversa no agradável bar do teatro que alia a austeridade do betão ballardiano com toques de decoração nostálgica retro, ou no final de um longo dia de Lisboa aproveitar quinze minutos esquecidos a ver teatro. De forma descontraída e intimista.

Janeiro reservou-nos as peças Bolas de Neve, Professor Roberto, pode beijar a noiva e Diagonais,  com o tema promessas como elemento de ligação. Diagonais funcionou como um happening, onde um texto fortemente poético sublinhava a geometria de afastamento de um casal. Como parte do cenário algo de totalmente inesperado: um projector de slides ainda funcional. O meu olhar não deixa de reparar nestes toques de tecnologia extinta. pode beijar a noiva foi um momento inquietante, monólogo de uma mulher de promessas atraiçoadas que oscilou entre a esfera do indivíduo e a sociedade contemporânea passado numa escuridão perfurada pelos feixes das lanternas que foram distribuídas aos espectadores. Professor Roberto foi um violento momento sobre pedofilia e dinâmica das relações entre vítima e vitimizador. Destacou-se pela força da actriz no papel de menina entregue às perversões de um pedófilo, mas a poderosa representação do actor que representou o inefável professor Roberto fica na memória pela complexidade emocional. A surpresa de Bolas de Neve residiu na forma como foi tratada esta peça onde uma mulher é julgada por pequenas acções de egoísmo que se revelam com consequências funestas. Esta peça teve um intrigante toque de temática fantástica, com inspiração cinematográfica (vieram-me à memória filmes como Cube ou Saw) e um desenrolar de texto que estava a altura do melhor do género. Quatro boas surpresas para iniciar o ano de 2013.

Todos os meses há quatro peças à volta de um tema. Quanto a mim já percebi que uma visita ao Teatro Rápido passará a fazer parte das rotinas mensais (de preferência lá mais para o fim do mês, que é quando chega a Interzone à Tema). A programação de Fevereiro está disponível na página do Teatro Rápido.

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