quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Alfa 33 e o Furúnculo de Salazar




Renato Carreira (2012). Alfa 33 e o Furúnculo de Salazar. Smashwords.

Nestes tempos de crise de valores democráticos as memórias do Estado Novo douram-se com uma pátina de nostalgia por tempos mais simples, como se viver debaixo de um regime fascista e obscurantista que privilegiava elites e se socorria de um provincianismo atroz para afirmar os seus valores fosse vastamente preferível aos tempos contemporâneos. É sintoma daquele carácter português, forjado por séculos de obscurantismo religioso e político, estimulador da mesquinhez generalizada para manter os privilégios de uns poucos e apologista do homem forte e autoritário, do caudilhismo como forma de desresponsabilização individual perante o estado geral das coisas. Assim se percebe o nosso gosto por Dons Sebastiãos, Salazares, Sidónios, líderes de punho forte que metem ordem na bandalheira porque isto da liberdade é bom é para os outros, que o zé povinho não tem capacidade para isso.

Este curto e-book combate a nostalgia pelos velhos tempos com um humor corrosivo e genial. Através de uma paródia ao romance de espionagem os elementos icónicos do estado novo são caricaturados e postos a nu no absurdo do seu provincianismo totalitarista. A história é inventiva, com um charmoso agente secreto da PIDE que numa distopia alternativa tem de lutar contra uma gravosa conspiração contra a moral e bons costumes do estado, ameaçada por um filme pornográfico de Salazar enrolado como possante macho latino com uma certa jornalista francesa num portugal onde o 25 de abril foi travado a tempo e o desenvolvimento de uma bomba atómica assegurou o futuro do regime. A caricatura ao cinzentismo salazarento é perfeita, com os absurdos da moral e bons costumes, as ridicularias legais de uma sociedade fechada, a clássica corrupção familiar do irmão tio do primo do ministro que assegura contratos chorudos, o espírito sufocante do catolicismo institucional, analfabetismo dominante, o portuguesismo popularucho tornado ícone através do cinema de comédia português dos anos 40 e 50.

Apetece traçar comparações entre este conto e a eterna promessa que é a série Capitão Falcão, mas não entro por aí. A série inspira-se no cinema grindhouse e no icónico batman televisivo dos anos 60, o ebook brinca inteligentemente com o estereótipo do super-agente secreto charmoso, trocando o martini shanken, not stirred pelo tinto carrascão martelado em Almeirim. Ambas vão beber ao kitsch português dos tempos finais de um estado novo que merece ser recordado pelo seu pior e ridicularizado com inteligência, ao invés de ser revisto como uma era dourada onde nem tudo era perfeito mas éramos sublimes na pobreza humilde.

O livro é curtinho, bem escrito e está disponível gratuitamente no Smashwords. Vão ler, riam-se com os trocadilhos às voltas com a farinha 33, jaquinzinhos de bechamel como instrumento de tortura, dotes prendados de fadas do lar, furunculosos segredos de estado e pistolas de modelo renovado em tudo igual ao antigo.

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