quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Mariazinha, com diploma

Apanhei esta pérola do capitalismo desregrado no facebook. Humor negro à parte, confesso que senti uma forte revulsão ao ler este anúncio. Tropelias às leis laborais à parte, o que está aqui expresso é a ideia de que as novas mariazinhas importadas das berças para prestar serviços de submissa serviçalidade têm de ter curso superior. Porque para quem pode nada como ter uma professora licenciada por uma instituição de ensino superior para tomar conta das crianças. Este é mais um pequeno sinal do resvalar social em que vivemos. Há gente para quem o professor é mais um empregado. Se fosse para tratar de idosos se calhar exigiria médicos especializados. Afinal, para gente de bem todos os outros são apenas meros humanos de segunda. Ralé apropriada apenas para cumprir servilmente imposições a troco de ordenados reduzidos e dos quais se espera fidelidade e agradecimentos desvelados perante a generosidade das migalhas atiradas, uma vez que não são merecedores da generosidade de partilhar de tão gentis ambientes. É toda uma mentalidade de um punhado de gente de bem, meritória, rodeada por um imenso maralhal de povoléu desmerecedor da mais elementar generosidade que volta a vir ao de cima neste portugal em crise provocada por uma elite que visa manter os seus privilégios, lucrar o mais possível à custa de todos e empobrecer o país, empobrecer porque é na pobreza humilde que está a virtude. Palavras que geralmente são proferidas por quem não é pobre, note-se. Portugal está a tornar-se numa imensa coutada de caça onde uma reduzida oligarquia toma tudo de assalto, descaradamente, sem qualquer pejo e ainda justificando as suas acções predatórias com o bem da nação. Pouco falta para o regresso aos velhos tempos do estado novo.



Não resisto a citar o anúncio de emprego, que é particularmente ofensivo para qualquer professor: "URGENTE Precisa-se 1 Professora do 1º ciclo, para 5 crianças de 6 anos, e será para trabalhar das 17,00 até as 21,30 de segunda a sexta (com direito a uma folga sómente durante a semana, a escolha), e das 09,00 as 21,30 ao sabado, domingo e feriados, para casa particular na Ericeira. Nas férias escolares é para trabalhar das 09,00 as 21,30 de segunda a sexta e com direito a uma folga sómente durante a semana, a escolha. Bom salario e com possibilidade de fazer horas extras para alem do horario. Função a desempenhar sera a de dar apoio nos trabalhos de casa, desenhar, pintar, ler, escrever, ajudar trabalhos escola, ensinar jogos didacticos,brincar com elas, bem como em tudo que se relacione com a higiene das crianças, etc. Exige-se a pessoa que for admitida, pontualidade e assuididade bem como que seja séria, limpa, educada, ter gosto por crianças, e ter capacidade de trabalhar com as outras empregadas da casa. Aos fins-de-semana, feriados, e férias escolares, damos tambem almoço. Disponibilidade para viajar em passeios quando forem as férias escolares. As candidatas selecionadas exige-se Referencias, bem como Registo Criminal (limpo)."


Portanto, alguém com dinheiro a sobrar e paciência para aturar os filhos a faltar quer uma menina licenciada que lhe tome conta dos petizes desde o momento que chegam da escola (colégio, mais provavelmente) até à hora de deitar. Férias e fins de semana são jornadas de sol a sol, a ultrapassar o horário legal de trabalho. Ainda oferece possibilidade de fazer horas extra. Possibilidade que possivelmente é obrigatoriedade. As funções a desempenhar são aquelas da estrita competência de uma docente, como alimentar e dar banho às crianças. Pois, porque é para isso que servem professoras. Note-se também a flexibilidade no trato com outras empregadas. Esta generosa oferta ainda dá a possibilidade de escolha de um dia de folga semanal, desde que não calhe ao fim de semana, feriado ou férias escolares. Talvez haja a possibilidade de horas extra a fazer serviços horizontais ao patrão, se a candidata for jeitosa, e como é na Ericeira a vista tranquila de mar é garantida.

No antigo Portugal, que está de regresso em força, era costume meninas do campo serem enviadas para casas de boas famílias para trabalhar como empregadas domésticas a troco de tostões. A escolaridade era um empecilho e exigia-se delas servilidade total e disponibilidade a toda a hora para todo o serviço. Até animar sexualmente as noites do patrão ou dos filhos. As marias de hoje já têm de vir com um canudo universitário. Sinais de progresso, escrevo amargamente?

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