sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Telemóvel como metáfora

Adoraria ter acesso a um vídeo ou transcrição desta sessão de perguntas e respostas de Grant Morrison numa convenção que lhe era dedicada. A uma pergunta sobre a possibilidade de esperança no futuro nestes dias negros, Morrison responde desta forma genial: 

"Everyone's got a phone now and the phone is getting smarter and smarter, the phone's getting smaller and smaller, children have them now, so what you're seeing is the development of a prosthesis," Morrison said, explaining phones were evolving alongside humans and slowly merging the two into one. He also cited Stephen Hawking's brain-computer interface as helping speed transhumanism, seeing both things as the beginning of a way of life that would turn humanity into a literal network identical to technological networks, erasing war and all barriers by interconnecting the human race. "It's going to be something new, it's going to be a networked entity," Morrison continued. "That's what happening right now and there's kind of a race on between the apocalypse and this thing -- It's not aliens that are going to come in, it's the phone that's going to come in. The phone is ringing for us right now and is about to connect everything up."

Para os mais incautos soa um pouco a uma resposta bizarra da parte de um autor que prima pelo surrealismo aplicado ao género dos comics. Na verdade, é uma intuição certeira sobre o futuro da humanidade, de parte da humanidade, pelo menos, e é se é que teremos futuro. Ideias discutíveis, porque factores como o apocalipse ecológico, a implosão financeira, o esgotamento de recursos ou o cada vez mais profundo fosso entre o ter e não ter podem e vão interferir com qualquer previsão futurista. Mas esta ideia é válida, e mostra que Morrison tem a mão no pulso das tendências tecnológicas e sociais contemporâneas. Phone, smartphone, telemóvel, é apenas uma metáfora, um referente que nos é conhecido e que dá nome à convergência cada vez próxima entre homem e computador. 

Quem não tem um telemóvel no bolso, ou perto de si? Mais do que simplesmente fazer chamadas, estes dispositivos funcionam como uma espécie de memória portátil, armazenando dados com significado para os utilizadores e abrindo a janela para a vasta memória colectiva que é a internet. Vemos essa proximidade ser reduzida sempre que surgem ideias como o Google Glass ou outros género de óculos ou lentes de realidade aumentada, e que se intui que o próximo passo é uma convergência directa entre o humano e o digital - um campo especulativo e experimental que vai desde interfaces com o cérebro até à possibilidade de digitalização humana, algo que esta semana ganhou fôlego com a notícia que investigadores planeiam digitalizar partes do cérebro de abelhas e carregá-las como simulações em robots. Soa implausível ou improvável, mas reparem nisto: os computadores começaram por ser dispositivos mecânicos de cálculo, que evoluíram para dispositivos complexos electro-mecânicos de cálculo complexo e depois para máquinas digitais programáveis. Já ocuparam enormes salas e foram reduzindo drasticamente o tamanho enquanto aumentavam exponencialmente de potência. Foram sempre ficando cada vez mais próximos do homem. Se nos tínhamos de deslocar ao computador quando este ocupava um edifício, a proximidade aumentou com o computador de secretária, com o portátil, e agora com aquele que nos cabe no bolso. Investigamos activamente a sua incorporação numa prótese corporal acessível a todos. 

Por isso, sim, há uma tendência. As nossas próteses digitais irão progressivamente integrar-se com o nosso corpo. E a mente humana irá modificar-se. Não é uma ideia nova. McLuhan compreendeu isso quando percebeu que diferentes meios de comunicação modificavam a forma de pensar. Essa revolução cognitiva, potenciada pela internet e discutida entre campos que vão do utopismo singularitário aos confrontos culturais entre a linearidade literária e a não-linearidade do hipertexto mas cuja realidade é mais prosaica e assenta na influência cultural de meios de comunicação globais. E iremos mudar. Vivemos numa era de cultura global em que ideias ganham espaço ao nível planetário, e uma uniformização cultural feita de fragmentos locais num ambiente global ganha força. Os meios de comunicação são vectores de transmissão de vírus culturais que modificam comportamentos locais para padrões globais. 

Chamem-lhe o que quiserem. Utopia tecnológica, singularidade, transhumanismo. Não acontecerá como previsto pelos futurólogos e pensadores. Mas irá acontecer. As metáforas tecnológicas para o vírus da cultura humana têm como destino final a integração com o corpo. Até porque, apesar dos sonhos mais esotéricos dos transhumanistas que já se imaginam como consciências digitais em espaços virtuais, parte do que constitui o sentir o que somos depende do nosso corpoa.

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