domingo, 14 de outubro de 2012

Sonho Europeu

A atribuição do prémio Nobel da paz em 2012 à União Europeia está a intrigar jornalistas e a despertar risos mordazes que alastram pelas redes sociais. É um prémio que nos dias que correm nos deixa um pouquinho siderados. Neste momento actual, em que políticas económicas de austeridade selvagem são impostas a boa parte da população da União, em que um país parece ter assumido uma liderança de facto mas não de jure apenas por ter os cofres recheados em tempos de míngua financeira, em que a economia se afunda e as instituições europeias se mostram incapazes ou sem vontade de intervir decisivamente, em que manifestações massivas pacíficas ou violentas mostram o progressivo descontentamento de populações cada vez mais desesperadas, em que a soberania de alguns países está efectivamente suspensa, funcionando os seus representantes eleitos como meros pro-cônsules com a obrigação de impor políticas de austeridade vindas do exterior, é atribuído o altamente simbólico prémio Nobel da paz a uma instituição notoriamente tecnocrática que funciona segundo o princípio clássico de nós sabemos o que é melhor para todos, que toma decisões que afectam a vida de milhões ultrapassando as soberanias locais sem os escutar, e que nas raras vezes em que se digna a consultar os cidadãos europeus para ratificar decisões já tomadas obriga à realização de referendos sucessivos até que a vontade expressa pelos cidadãos reflicta a vontade dos euro-tecnocratas? Um Nobel da paz... a isto?

A fundação Nobel é uma daquelas instituições que concebemos como cheias de seriedade e gravitas, a apontar para assuntos importantes e sérios. É a sua mística, de instituição neutra cuja intervenção se limita a uma fortemente simbólica escolha anual. As suas atribuições no campo das ciências destacam-se pelo carácter revolucionário silencioso das investigações premiadas, e a literatura mistura uma agenda de qualidade literária com uma promoção discreta de autores que caem fora da esfera euro-americana que domina o panorama literário mundial. Já o Nobel da paz é um prémio assumido, de forma muito discreta, como controverso e distingue habitualmente pessoas ou instituições que travam lutas contra governos opressivos ou injustiças sociais que no momento da atribuição do prémio podem parecer desesperadas ou perdidas. Recordam-se de Desmond Tutu nos tempos do apartheid, ou de Ramos Horta e Ximenes Belo quando a Indonésia ocupava Timor Leste? Também atribuiu prémios carregados de simbolismo, como a Gorbachev pelo fim da guerra fria ou Obama por ter sido o primeiro presidente afro-americano da história dos estados unidos. São atribuições dúbias, que obrigam à reflexão. Se olhamos para este prémio da paz para a União Europeia e discordamos, é porque algo está mal. Talvez seja isso que o discreto comité quer sublinhar.

Uma coisa é inegável: a União Europeia conseguiu o impensável. Num continente cuja história está recheada de conflitos sangrentos e que legou ao mundo a  primeira guerra combatida à escala planetária (a II, e felizmente não voltou a haver outra do género), onde as divisões culturais e fronteiriças imperavam, a UE trouxe... união. Trouxe paz a um continente habituado a grandes guerras periódicas ou a pequenos conflitos rotineiros. Trouxe programas de investimento que harmonizaram infraestruturas entre países mais desenvolvidos e países menos desenvolvidos e que tiraram da pobreza extrema milhões de cidadãos europeus. Recordam-se do Portugal pobre, ruralizado, sub-desenvolvido e semi-analfabeto dos tempos anteriores à adesão à CEE, posteriormente UE? Por muito negros que sejam os dias de hoje, e por muito euro mal investido em auto-estrada no meio de nenhures, é inegável que gozamos de um nível de vida superior e de horizontes mais alargados do que teríamos se não integrassemos a UE.

Este prémio Nobel é uma enorme chapada de luva branca na face dos líderes e cidadãos europeus. É um toque de despertar. É um aviso. Recorda-nos da importância da UE para a paz e prosperidade. Avisa-nos que as indecisões do momento actual, os desiquilíbrios entre regiões transnacionais, a submissão cega a mercados financeiros desregulados, a tónica na austeridade sacrificial como pena a aplicar a todos pelos desmandos de alguns, a preponderância de um estado-nação dentro de uma união de estados, colocam em risco todas as conquistas dos últimos sessenta anos. Arrisca-se a desagregação, a perda da união, a alienação dos cidadãos. Afunda-se o ideal europeu através do empobrecimento forçado para manter um status-quo ilegítimo. E avisa também que as instituições europeias têm de fazer um esforço por ser mais transparentes e democráticas. Um dos paradoxos da construção europeia é a forma pouco democrática de construção de uma cultura democrática pan-europeia. Este prémio recorda-nos tudo o que foi conquistado, o risco fortíssimo de perda dessas conquistas, e obriga a reflectir no que temos de fazer para manter de pé o sonho de uma sociedade europeia próspera, pacífica e justa.

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