quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sufocos

Não é que isso me interesse muito, mas sinto que não fui tão útil como poderia ter sido noutro país. Digo muitas vezes, em cinema fiz imensas inovações, imensos experimentalismos que noutros país alguém pegaria nisso e haveria de fazer melhor... era isso que eu queria... aqui as coisas desaparecem, morrem. Aquele esforço gigantesco que fiz anos e anos... olho para trás e vejo o que fiz, mas não vejo que tenha ajudado o que quer que fosse, não vejo reflexos disso. Esse esforço que poderia ajudar, ficou submerso, no zero, coisa que não aconteceria noutro país, onde uma ideia é desenvolvia e vem outro e melhora, depois vão à lua, aos planetas... (p. 74)

Este país é sufocante... tem muito a ver com a inquisição, que tivemos cá durante trezentos anos! (...) Parecendo que não marcou muito o povo inteiro, porque quando acabou em 1821, houve aquela vaga de "democracia" do séc. XIX, com parlamento, partidos... logo a seguir a República, com aquela confusão toda e em 1926 acabou. Este povo não teve respiração nem sei quando terá, porque a mentalidade ficou de tal maneira vincada, uma mentalidade fechada ao contrário dos outros povos... (p.74)

António de Macedo em entrevista sobre as aventuras e desventuras da sua carreira, no catálogo dedicado ao cineasta editado pela Cinemateca. Catálogo esse cujo grafismo a preto e branco não faz justiça à luminosidade e sentido cromático dos filmes de Macedo, mas cuja leitura é fascinante.

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