sábado, 16 de junho de 2012

Bloom Day

Saber que hoje, dezasseis de junho,  se comemora o dia em que o senhor Leopold Bloom vive a sua odisseia na cidade de Dublin  trouxe-me à memória uma pequena recordação de Gibraltar. Visitar o famoso jardim botânico sob o opressivo calor andaluz misturado com a brisa húmida levantina. O jardim é minúsculo e pouco interessante, um pouco de jardinagem científica transplantada pelo corpo real de engenharia para o sopé do rochedo. Mas um dos seus recantos comemora a ficcional Molly Bloom, esposa de sangue ardente do senhor Leopold que devaneou com galantes oficiais nos recantos gibraltinos antes de monologar em Dublin.

Num semi-círculo por entre árvores e sebes está uma pequena estátua a retratar a senhora Bloom. E quando lá passei uma mulher e a sua filha pequena deleitavam-se a retratar-se ao pé da estátua. Algo me diz que esta mãe numa leu o Ulisses de Joyce... ou então é apologista de educações libertárias. Porque Molly foi flor das montanhas, disposta a ser colhida sob as alamedas à sombra do rochedo:

O and the sea the sea crimson sometimes like fire and the glorious sunsets and the figtrees in the Alameda gardens yes and all the queer little streets and the pink and blue and yellow houses and the rosegardens and the jessamine and geraniums and cactuses and Gibraltar as a girl where I was a Flower of the mountain yes when I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wall and I thought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes.


O final do monólogo é um de muitos atentados que Molly faz ao ideal de decência e recato vitoriano. Por estas e por outras é que o livro se tornou maldito. 


Dezasseis de junho, 1904. Data da noite em que a singular Penélope joyciana proferiu o mais famoso e longo monólogo interior da literatura.

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