segunda-feira, 14 de maio de 2012

Nossa realidade

A ouvir Tânia Hetkowski na conferência de abertura do JCDE 2012. Projectos interessantes, nos domínios da consciência espacial (que na terminologia brasileira denominam de geotecnologias) e produção multimédia por e com crianças. Com aspectos intrigantes. A sua equipa ultrapassa as cem pessoas, entre professores e colaboradores que vão dos campos do design à informática. Mas ao ouvi-la não estava realmente a registar os projectos pedagógicos. Estava a construir um outro raciocínio a partir de frases soltas da comunicação.
Professores mal pagos e desmotivados. A primeira reacção dos participantes era a recusa em participar por sobrecarga lectiva e baixa identificação com a zona de trabalho. Também comentavam que não tinham dinheiro para auto-formação.
Sobrecarga do sistema. Pensemos em cidades hiper-urbanizadas. Salvador, onde Hetkowski desenvolve projectos, tem 3 milhões de habitantes e uma pressão urbanística fora de controle. As zonas onde intervém são bairros com cem mil habitantes onde só existem duas escolas públicas. O desnível económico entre os que ganham mais e os que ganham menos é avassalador: estamos a falar de 70% no limiar ou abaixo dos níveis de pobreza.
E, finalmente, uma curta frase: "aluno classe média paga a escola. É essa nossa realidade."
Isto não é um post lamechas sobre pobreza noutros pontos do mundo ou um post a afirmar superioridades europeias sobre outros hemisférios. O que senti ao ouvir estas descrições foi medo.
Olhando para o corrente estado das coisas português, para o desmantelamento concertado de serviços sociais públicos em nome da austeridade e da melhoria do estado do país (se há um exemplo de novilíngua é este...), pergunto-me até quando se manterá um sistema público de ensino (e já agora de saúde ou segurança social) abrangente e de qualidade. No universo da educação começamos a sentir o peso de uma reforma curricular que se centra ano reforço de disciplinas teóricas consideradas nucleares à custa do ensino artístico, aumento do número de alunos por turma e diminuição do número de professores, focalização no estudo puro para desempenho em exames. Em suma, o refocalizar do sistema de educação para instrução. É cedo para apontar consequências a médio e longo prazo, mas temo que se esta curva descendente for até às últimas consequências a frase "aluno classe média paga a escola. É essa nossa realidade" se torne também a nossa realidade. E a maior das conquistas do turbulento século XX - uma sociedade mais equalitária, onde são assegurados níveis elementares a todos, perde-se e regressamos ao velho paradigma vitoriano de mérito baseado no berço ou dinheiro.

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