terça-feira, 1 de maio de 2012

Anthem

Ayn Rand (1995). Anthem. Nova Iorque: Dutton

Originalmente publicado em 1938. Pode ler lido aqui em vários formatos (epub, mobi, pdf).

É muito fácil ficar atraído por Anthem. É uma obra liminar, simplista, que vive da luta de um indivíduo contra a sociedade que o rodeia, essa mais adolescente das emoções. Quem não souber nada sobre a autora pode achar que está perante uma pequena pérola da literatura distópica. Simplista, mas intrigante.

Anthem é um hino à individualidade pura, que Ayn Rand traça através de um constraste duro entre um homem que se sente diferente e uma sociedade que é uma caricatura grosseira dos piores pesadelos colectivistas distópicos. Não é um tema novo. Huxley em Admirável Mundo Novo e Orwell em 1984 já o haviam abordado de forma mais profunda e atendendo à complexidade da alma humana. Rand não se dá a esse trabalho, com um foco quase autista numa prosa que não disfarça um ódio por qualquer outra forma de pensamento que não se enquadre na sua estreita visão.

A sociedade futura do romance é um pesadelo colectivista, onde a individualidade é negada e todos estão ao serviço do estado, que dirige minuciosamente as vidas dos cidadãos. A vida é colectiva e a submissão é total. O estado alimenta, dá abrigo, escolhe a profissão, dirige os tempos livres e regula as relações sexuais estritamente necessárias à reprodução. É um mundo retrógrado que esqueceu a ciência e onde a esperança de vida é diminuta. Agir ou pensar fora do colectivo é um crime e o pior deles é pronunciar a palavra eu. O protagonista deste romance é alguém que não se adapta aos diktats e cuja curiosidade o leva a por em causa os alicerces sociais e redescobrir um mundo que se julgava perdido.

É impossível não ler este livro e imaginar o muito real pesadelo político colectivista que é a Coreia do Norte. As descrições de Rand assemelham-se muito à imagem pública deste país. A realidade é por vezes mais estranha do que a ficção.

Este seria um livro curioso, ficção distópica menor de tom juvenil, não fosse o pendor ideológico da autora. A esta luz, o livro é um veículo para ideais objectivistas, ódio ao elemento social e um hino ao individualismo egoísta. Dentro dos estreitos limites ficcionais desta obra é difícil não concordar com Rand. Confrontados com um totalitarismo absoluto, é impossível não simpatizar com um homem diferente conhecido com o frio nome de Equality 7-2521 que se sente esmagado por forças que percebe como retrógradas e auto-destrutivas com doses de hipocrisia. Fechando as páginas do livro, e olhando para o mundo real, percebe-se que o extremo individualista tão caro a Rand é tão corrosivo e destrutivo como as utopias sociais cooptadas pela destrutiva sede de poder.

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