terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Malhadinhas


Aquilino Ribeiro (1978). O Malhadinhas. Lisboa: Bertrand.

Este livro reúne duas novelas de Aquilino, a clássica O Malhadinhas e a picaresca Mina de Diamantes. É um emparelhamento adequado, dado que apesar das aparentes diferenças temáticas, tocam no mesmo cerne - a falsidade do caráter humano, impiedosamente dissecada pela pena aquilinista.

O Malhadinhas transporta-nos ao Portugal profundo e rural da viragem do século XX, embora não se sinta muito a localização temporal. É um retrato de um caráter atemporal, rural e empobrecido, de vistas limitadas às aldeias e regiões limítrofes. Seguimos as aventuras de um homem que não é todo um herói. Senhor do seu nariz, inquieto e por isso bom almocreve e negociante, incapaz de domar as suas paixões e àgil no uso da navalha e varapau, vive num constante confronto com o mundo que o rodeia. Um mundo que é em si impiedoso, cheio de violência latente e pobreza. Apesar dos acometimentos de violência que o levam a fugas e prisões, o Malhadinhas safa-se, constrói a sua vida e amanha a sua leira. Morrerá de idade profunda, em paz, terminando os dias na beatice de quem se quer reconciliar com deus após passar uma vida a fugir das leis da igreja.

Malhadinhas não é nehum herói, mas também não é vilão. É apenas um sobrevivente, produto do substrato de pobreza, ignorância e violência de um país de paisagens bucólicas e miséria aldeã. De certa forma, este retraro impiedoso de Aquilino lê-se como o reverso de Os Meus Amores de Trindade Coelho, esse elogio de uma singeleza e humildade rurais que oculta o desaire da pobreza.

Mina de Diamantes é uma novela deveras picaresca. Seguimos aqui o regresso triunfal de um emigrante à terra natal. Mas desenganem-se se esperam uma história de benevolências e bondades. Estamos longe disso, e não há na novela nenhum personagem que não seja corrupto - aquela corrupção que é amoral, porque sistémica e condição essencial de sobrevivência social. 

O regresso não se dá por saudades da terra, mas por necessidade. O emigrante singrou na vida num Brasil graças a ser bem apessoado, bem falante e cair nos regaços das esposas entediadas de banqueiros. Tornou-se funcionário municipal, o que lhe permite meter a mão em inúmeras negociatas na cidade. Concupiscente, cede aos enquantos da jovem esposa de um rival, e percebe que um regresso temporário a Portugal é a melhor forma de escapar aos riscos de uma bala vingativa, enquando o ultrajado não se acalma. Claro que sendo uma figura que tem de dar nas vistas, a viagem transforma-se em périplo de notoriedade, com reportagens nos jornais a detalhar a partida e chegada de tão importante personalidade.

Por cá, é recebido como um grande senhor, sendo-lhe rendidas as mais profundas homenagens e condecorações. Transformado em comendador, regressa à terra natal, uma típica aldeia empobrecida das beiras profundas. Claro está que vai atrair a cobiça de todos. Não há quem se safe, não há quem não arranje esquemas ou pedidos para sacar dinheiro ao supostamente rico comendador, que na verdade é pouco mais do que um mero e mediano funcionário corrupto. Toda a região se desdobra em salamaleques e homenagens, em pedidos para que o benemérito beneficie as terras. Para piorar, o retornado não mete travão à sua alma lúbrica, e depressa seduz sobrinhas e afilhadas, o que o coloca em novas complicações morais que se resolvem com a dose certa de notas de conto.

Se em O Malhadinhas há um moralismo na violência, em que apesar de todos os sarilhos em que se mete e provoca o homem tem um fundo de bem, Mina de Diamantes não há quaisquer modos de moral. Todos são corruptos, o emigrante comendador revela a corrupção trazida pela urbanidade, mas a sociedade rural a que regressa revela-se igualmente corrupta, disfarçando a amoralidade com que espolias os outros, vende as filhas e procura amealhar trocos fáceis com a capa da religião e probidade social. A pobreza do subdesenvolvimento luso em 1922, ano de publicação de O Malhadinhas, mantém-se no país supostamente mais desenvolvido sob o jugo estadonovista de 1958, ano de publicação de Mina de Diamantes.

Está aqui o ponto que torna as duas novelas iguais. Aquilino não disfarçava a desumanidade de uma ruralidade de pobreza, ignorância e violência debaixo de romantismos de piedosa honestidade. Nas duas novelas, a sociedade é impiedosa como condição de sobrevivência, safa-se quem mais porfia, quer seja no enganar, no pedinchar ou sarrafar. No fundo, é um retrato que não sendo bonito, representa a realidade crua de um Portugal passado. Mas, quando leio esta crueza aquiliniana na forma como desmonta as falsidades do caráter humano, não deixo de olhar para a sociedade contemporânea que nos rodeia e pensar que talvez estes traços se tenham mantido, apesar da nossa modernização.