Arthur C. Clarke (1986). A Vida no Século XXI. Lisboa: Europa-América.
É sempre interessante revisitar estes textos futuristas, evitando sempre o tom condescendente na leitura. É claro que as predições não se concretizaram, este tipo de textos são extrapolativos e especulativos, não oráculos, e mostram-nos muito sobre as ânsias e esperanças do tempo passado. Apesar de não serem preditivos, são interessantes na forma como identificaram tendências de evolução tecnológica e social que, embora não se concretizando de forma linear, se fazem sentir no nosso mundo contemporâneo. Neste que é o real futuro, percebemos ao ler textos especulativos informados do passado que muito do que fazemos hoje já era preocupação nesses tempos.
As especulações de Clarke são informadas, baseadas em análises e entrevistas com especialistas. Olha para a robótica, antevendo um futuro próximo em que os humanos poderão livrar-se do trabalho manual, entregue a robots. Imagina redes de transporte rápidas e eficazes, combinando aeronaves supersónicas, comboios de alta velocidade e hovercrafts para deslocação rápida e barata para qualquer parte do planeta. Na saúde, cruza o desenvolvimento tecnologico e da ciência médica com uma visão muito benévola da medicina privada (ah, a inocência), enquanto na educação extrapola, e muito bem, a necessidade de sistemas de formação ao longo da vida para cidadãos que terão de se atualizar, bem como a vontade de aprender mais. A sociedade informatizada em que vivemos é vislumbrada, por vezes em pormenores curiosamente certeiros - o uso de IA para advocacia ou sistemas automáticos para saúde mental são dois exemplos, mas Clarke não prestou atenção ao potencial da então nascente internet, e extrapolou futuros de telefones por vídeo e cassetes VHS. Não podia falta um capítulo sobre guerra, que me pareceu algo decalcado de The Third World War de John Hackett, e daí o conceito que retirei foi a visão da imutabilidade futura de um mundo dividido entre dois blocos, o ocidental e o soviético.
Nestes dias de um futuro distópico, em que sentimos as liberdades e garantias a resvalar sob pressão de conservadorismo radical, em que a promessa libertária da internet foi esmagada pelas grandes empresas para construir o que é pouco mais do que uma máquina global de extração de dados que vicia os utilzadores, perante o quadro grave dos efeitos das alterações climáticas e o resvalar do mundo geopolítico para um sistema de autocracias e novos totalitarismos, o mais refrescante destas leituras é o seu lado de inabalável otimismo. Qualquer que fosse a extrapolação, é patente a fé de Clarke num futuro melhor, numa ideia que o progresso era imparável e nos iria melhorar, enquanto sociedade e ao nível individual. Essa promesa, sente-se o quão longe está de ser cumprida.