quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Eu, Ross Pynn


Frank Gold (1985). Eu, Ross Pynn. Odivelas: Europress.

Uma homenagem àquele que talvez tenha sido o melhor, entre prolífico e intrigante, escritor de literatura popular policial e de westerns, feita por um dos seus colegas. Se por cá nunca houve literatura pulp no sentido clássico do termo, com revistas dedicadas, houve outras formas de entretenimento literário, o folhetim ou os romances serializados em jornais. E, claro, o livro de bolso, especialmente focado nos géneros que despertavam o imaginário da população portuguesa, o policial e as histórias do velho oeste. Hoje algo praticamente esquecido, exceto talvez no policial, a única literatura pop tolerada pelo nosso mainstream conservador, o pequeno prazer culposo aceitável entre doses das leituras consideradas boas e pertinentes.

Não é de atrever dizer que tivemos por cá grandes escritores destes géneros, eram essencialmente jornalistas que ganhavam uns trocos a imitar o pulp policial e western que também se editava por cá. Geralmente, assinavam os livros com nomes de um sonante anglófono, sublinhando que os esforços eram comerciais e pseudónimos estrangeirados sempre eram melhor publicidade, ligando-os aos autores americanos e ingleses que imitavam. Ross Pynn, ou melhor, Roussado Pinto num dos seus pseudónimos, foi um dos mais interessantes praticantes desta literatura a metro, com uma curiosa capacidade para decalcar os modelos policial noir e velho oeste em histórias que ainda hoje merecem ser lidas, são um primor de purple prose, iconografias bem batidas e esterótipos literários.

Eu, Ross Pynn mergulha-nos numa tortuosa, nem sempre muito lógica, história de vícios, crime e degradação moral. O próprio Pynn é o personagem principal, assumindo o manto estereotipado de investigador duro e sempre na corda bamba financeira. Cruzar-se-á com mulheres sensuais e fatais, com o mundo obscuro dos vícios dos muitos ricos, com conspirações que usam a sexualidade para garantir a riqueza de pessoas desesperadas. Há um pouco de tudo nesta história despoletada quando um rico comendador contacta o investigador para descobrir o paradeiro da mulher que ama, aparentemente desaparecida.

Frank Gold, outro dos nomes do policial à portuguesa, pseudónimo de Luís Campos, constrói um livro de homenagem, em que interpreta a prosa púrpura de Pynn e a leva a novas profundidades (as descrições de emoções sensuais são um mimo de prosa púrpura), cruzando a sua linha narrativa com excertos de textos de Pynn. É tudo muito cheio de vício, duro, hardboiled, decadente. A história pode não fazer muito sentido, percebe-se também o estilo do encher páginas e criar acidentes sucessivos para esticar o romance. Ou seja, o estilo típico da prosa comercial para livros baratos, de entretenimento despertador de sensações nos leitores. Um estilo que, tanto quanto sei, se perdeu por completo, cá.

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