quinta-feira, 2 de setembro de 2021

A Era do Capitalismo da Vigilância


Shoshana Zuboff (2020). A Era do Capitalismo da Vigilância. Lisboa: Relógio D'Água.

É justamente considerado um dos mais importantes e pertinentes livros da atualidade.  Analisa a multimilionária economia digital da atenção, focada na forma como os criadores e gestores dos principais produtos que usamos no dia a dia conseguem lucrar com o condicionamento dos nossos comportamentos digitais. Zuboff não se fica por pouco, entretece uma profunda rede de pensamento que coloca a análise às metodologias das empresas dentro de um quadro conceptual mais profundo, cruzando behaviourismo, neoliberalismo e política global.

Partes deste livro levam a pensar se não é boa ideia desligar redes sociais e deixar de usar serviços de webmail ou pesquisa online. Nisso, Zuboff é brilhante, e minuciosa, a relatar  as diferentes formas que as grandes empresas do online criaram, e continuam constantemente a afinar, para nos rastrear, analisar comportamentos, recolher dados, bem como a possibilidade de mudar os comportamentos dos utilizadores através de mudanças subtis naquilo que vêem. É uma economia de controlo, de certa forma autofágica em ciclo - quanto mais é usada, mais dados gera que permitem a afinação contínua de ferramentas e metodologias, com mais eficiência que leva a mais uso.  Nisto, Zuboff é brilhante, colocando o dedo numa das grandes feridas da atualidade: a necessidade de responsabilização, compreensão, e supervisão dos modelos de negócio da Google, Facebook e outras empresas da economia digital da atenção.

Por outro lado, é impossível não sentir um certo tom de exagero na forma como Zuboff enquadra estas questões. São, sem dúvida, pertinentes e arrepiantes, mas a análise soa algo empolada, como se as ações das empresas fizessem parte de uma conspiração inspirada em Skinner, Friedman e Hayek disfarçada sobre libertarismo tecno-utópico californiano. O empolamento maximizado do tópico de estudo é uma estética académica deste tipo de livros, e aqui faz perder um pouco o norte, com Zuboff a esforçar-se meticulosamente por enquadrar o uso de dados como tendência política. Apesar disto, é uma obra indispensável para se compreender profundamente o mundo digital.

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