quarta-feira, 28 de outubro de 2026
terça-feira, 27 de outubro de 2026
Arte e scienza: Dalle caverne all’Intelligenza Artificiale
Flavio Ferlini (2026). Arte e scienza: Dalle caverne all’Intelligenza Artificiale. Città di Castello: Odoya.
É um mito confortável, pensar que não há relação entre as artes e as ciências. Diria até que é iconografia batida, especialmente na cultura pop, a representação do artista como alguém etéreo e instintivo, em oposição ao rigoroso e metódico cientista. Na verdade, as coisas não são bem assim, a suposta clivagem entre os mundos das artes e ciências é muito relativa, e as relações entre eles são muito intensas. É claro que são áreas distintas, com interesses e objetivos muito diversos, mas dependem muito mais uma da outra do que a mitografia superficial julga.
Este livro demonstra muito bem quão profunda é essa relação. E vai a fundo. Seria óbvio analisar as relações ciência e arte no século XX e XXI, mas atreve-se a ir até à pré-história para demonstrar esta relação. Que, ao longo da maioria da continuidade temporal histórica, se foca essencialmente naquilo que hoje chamamos a ciência dos materiais, através do desenvolvimento de pigmentos ou processos de fundição de vidro e metal, um saber artesanal que antecede em muito o método científico. A antiguidade clássica, com a tradição greco-romana, traz outros dois elementos proto-científicos - a preocupação com o naturalismo e o rigor anatómico, bem como as sistematizações geométricas que mais tarde viriam a ser recriadas com a noção de perspetiva linear.
Um elemento interessante deste livro é que não se contenta com a habitual visão eurocêntrica da história de arte, olhando para o que se fez, para os vestígios, obras preservadas e registos históricos de outras épocas e civilizações. Mostra que dos aborígenes australianos à arte africana ou pré-colombiana, os artistas sempre exploraram de forma metódica meios e materiais, num misto de tradições e experimentação técnica cujos vestígios chegaram aos dias de hoje.
A partir do renascimento, o livro converge, necessariamente, na tradição europeia. A invenção, ou em bom rigor, sistematização das leis matemáticas da representação geométrica abriram um novo espaço na relação entre ciência e arte. Esta passou a basear-se num misto de mão eximia e rigor matemático, abrindo caminho e relacionando-se com as ciências ópticas, o estudo das propriedades científicas da luz e da cor, e, claro, o contínuo desenvolvimento de novos pigmentos e técnicas de tratamento de materiais. O estudo da anatomia, para além do rigor da representação exterios do corpo, abre-se ao interior e ajuda à compreensão científica e médica. Entra também o naturalismo, como forma de aliar o rigor gráfico ao estudo da natureza.
O final do século XIX traz consigo a revolução química, que deu aos artistas novos pigmentos e materiais, conjugado com a revolução óptica trazida pelo impressionismo, que procurava trabalhar a própria luz de acordo com as suas propriedades. A invenção da fotografia abre novos campos de representação, com a exploração sistemática das abstrações e da arte óptica.
No momento contemporâneo, as forças da ciência e tecnologia tornam-se em si quer materiais artísticos, quer linguagens de representação. A mecanização da escultura com a arte cinética, a explosão criativa trazida pela informática nos domínios da arte algorítmica, programação criativa, realidade virtual e impressão 3D. E, nos dias de hoje, a capacidade da inteligência artificial, que tanto pode banalizar a produção pictórica como levantar questões sobre a especificidade da criatividade como algo intrínseco ao humano.
terça-feira, 29 de setembro de 2026
The Art of David Em: 100 Computer Paintings
David Em (1988). The Art of David Em: 100 Computer Paintings. Nova Iorque: Harry N. Abrams.
Um daqueles achados inesperados de alfarrabista, quando andava a esgravatar as estantes da Castro e Silva em busca de um livro para oferta. Nos dias em que discutimos a artificialidade das imagens geradas por IA, se são arte ou apenas slop, se os processos artísticos têm de ser exclusivamente manuais ou podemos usar a automatização do digital para criar arte, é intrigante ler este livro. A minha resposta a esta questão é sim, claro, mesmo sabendo todo o oportunismo e o dilúvio de má qualidade estética que as ferramentas de IA estão a trazer quando usadas por pessoas sem sentido estético, conceito de expressão, vontade de martelar conteúdos para inundar redes e com isso ganhar uns trocos fáceis.
Esta questão da tecnologia e arte não é nova. Embora sempre algo desdenhada pelo mainstream, a arte digital tem-se vindo a impor como meio de expressão com linguagens próprias, e já há muito que se percebeu que denunciar os meios digitais como a artificialidade de clicar num botão e gerar imagens é um falso mito. Como em toda a expressão artística que vale a pena ser analisada, conta a intencionalidade, a lógica da peça, os seus significados, a capacidade de exploração de novas estéticas. Algo que me parece ser tão verdade para o digital como para os meios ditos tradicionais. Se tal não fosse, nunca teríamos dado o passo do pináculo da arte realista no final do século XIX para as novas fronteiras estéticas, e a nossa vida artística seria uma infinda estética belle époque. Há quem admire isso, dado que estes realismos são mais confortáveis ao olhar e ao cérebro do que a evolução das vagas de vanguardas estéticas.
David Em foi um dos pioneiros do uso do computador enquanto pincel, tendo-se dedicado a explorar as possibilidades estéticas nos tempos onde só trabalhando em colaboração com laboratórios de investigação se poderia ter acesso a meios computacionais, quer de hardware quer de software, na então incipiente computação gráfica. O experimentalismo visual é enorme, longe do formalismo quase robótico e matemático que costumamos associar aos primórdios da arte digital. A paleta de cores é explosiva, imperam os plasmas e as texturas arrojadas, muito longe do figurativo. As obras são dos anos 70 e 80, refletindo as limitações técnicas do hardware da época, e sublinhando o lado de exploração de novas fronteiras.
Um dos elementos que me atraiu o olhar para este livro foi ter lido, recentemente, um perfil de Em, detalhando o seu percurso artístico. Hoje, aderiu entusiástico à IA generativa, mantendo o mesmo espírito de experimentação livre e exploração do potencial dos pinceis digitais.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
lugar - depois
Finalmente, tempo para ir visitar o Museu Zero, espaço dedicado à arte contemporânea digital, em Santa Catarina da Fonte do Bispo. O projecto é muito interessante, cruzando a cultura contemporânea com o vitalizar dos espaços locais. já o conhecia de apresentações no Goethe Institut e Festival Inércia, mas ainda não tinha tido oportunidade de o visitar. Diga-se que só mesmo um projecto destes para me fazer ir ao Algarve.
Em exposição, encontramos Lugar Depois, com um conjunto de obras multimédia que reflectem sobre as geografias do Alentejo e Algarve. Obras provocadoras, apesar de algo académicas, que vale a pena ir visitar.
@archizer0 #museuzero ♬ som original - Artur Coelho 🇵🇹
Fica a faltar um acervo permanente visitável de obras de arte digital, para além das exposições temporárias. Enriqueceria o espaço cultural (e, tanto quanto sei, por cá nem há coleções permanentes de arte digital, mas posso estar enganado), dando-nos razões para regressar a um espaço que fica muito fora de mão, mas vale bem fazer os quilómetros todos de ida e volta para o conhecer o museu. Resta ficar atento à programação, para ver quando regressar.
Não posso deixar de referir a simpatia das pessoas do museu. O silo onde se situa é, em si, um tesouro arquitetónico, e a ajuda das assistentes é excelente para navegar no seu espaço interior.
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Jeffthielmusk®
Recordam-se dos tempos em que o futuro era visto como positivo? Em que a possibilidade de viver em O'Neills orbitais era excitante, e dar os primeiros passos na superfície marciana a aspiração de esperança numa humanidade que se espalha pelo espaço, construíndo novas utopias tecnológicas e científicas?
Pois, entretanto apareceram os bilionários, os tech bros e os lordes de sillicon valley. E os sonhos foram corrompidos, como fantasias escapistas de bilionários que querem isolamento luxuoso da destruição que provocam, ou utopias de capitalismo terminal onde tudo se compra e vende, e quem não tem meios não merece existir. As consequências humanas e ecológicas, que se danem.
Eu, que devorei Asimov, Clarke, Dick, Bradbury e companhia, ainda não deixei de acreditar num futuro melhor. Mas está cada vez mais difícil, e compreendo que novas gerações que só tenham conhecido crises económicas sucessivas e estão a levar com as alterações climáticas, não se sintam tão otimistas. O mundo em que cresci tinha esperança no futuro. Hoje, o futurismo foi detur
A performance Jeffthielmusk® este na galeria ZABRA - Posthuman Art Research Center, entre 24 a 26 de julho, e é de não perder. Originalmente estreada no GNRation, esperemos que regresse ao espaço deste projeto artístico.






































