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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Arte e scienza: Dalle caverne all’Intelligenza Artificiale


Flavio Ferlini (2026). Arte e scienza: Dalle caverne all’Intelligenza Artificiale. Città di Castello: Odoya.

É um mito confortável, pensar que não há relação entre as artes e as ciências. Diria até que é iconografia batida, especialmente na cultura pop, a representação do artista como alguém etéreo e instintivo, em oposição ao rigoroso e metódico cientista. Na verdade, as coisas não são bem assim, a suposta clivagem entre os mundos das artes e ciências é muito relativa, e as relações entre eles são muito intensas. É claro que são áreas distintas, com interesses e objetivos muito diversos, mas dependem muito mais uma da outra do que a mitografia superficial julga.

Este livro demonstra muito bem quão profunda é essa relação. E vai a fundo. Seria óbvio analisar as relações ciência e arte no século XX e XXI, mas atreve-se a ir até à pré-história para demonstrar esta relação. Que, ao longo da maioria da continuidade temporal histórica, se foca essencialmente naquilo que hoje chamamos a ciência dos materiais, através do desenvolvimento de pigmentos ou processos de fundição de vidro e metal,  um saber artesanal que antecede em muito o método científico. A antiguidade clássica, com a tradição greco-romana, traz outros dois elementos proto-científicos - a preocupação com o naturalismo e o rigor anatómico, bem como as sistematizações geométricas que mais tarde viriam a ser recriadas com a noção de perspetiva linear.

Um elemento interessante deste livro é que não se contenta com a habitual visão eurocêntrica da história de arte, olhando para o que se fez, para os vestígios, obras preservadas e registos históricos de outras épocas e civilizações. Mostra que dos aborígenes australianos à arte africana ou pré-colombiana, os artistas sempre exploraram de forma metódica meios e materiais, num misto de tradições e experimentação técnica cujos vestígios chegaram aos dias de hoje.

A partir do renascimento, o livro converge, necessariamente, na tradição europeia. A invenção, ou em bom rigor, sistematização das leis matemáticas da representação geométrica abriram um novo espaço na relação entre ciência e arte. Esta passou a basear-se num misto de mão eximia e rigor matemático, abrindo caminho e relacionando-se com as ciências ópticas, o estudo das propriedades científicas da luz e da cor, e, claro, o contínuo desenvolvimento de novos pigmentos e técnicas de tratamento de materiais. O estudo da anatomia, para além do rigor da representação exterios do corpo, abre-se ao interior e ajuda à compreensão científica e médica. Entra também o naturalismo, como forma de aliar o rigor gráfico ao estudo da natureza.

O final do século XIX traz consigo a revolução química, que deu aos artistas novos pigmentos e materiais, conjugado com a revolução óptica trazida pelo impressionismo, que procurava trabalhar a própria luz de acordo com as suas propriedades. A invenção da fotografia abre novos campos de representação, com a exploração sistemática das abstrações e da arte óptica.

No momento contemporâneo, as forças da ciência e tecnologia tornam-se em si quer materiais artísticos, quer linguagens de representação. A mecanização da escultura com a arte cinética, a explosão criativa trazida pela informática nos domínios da arte algorítmica, programação criativa, realidade virtual e impressão 3D. E, nos dias de hoje, a capacidade da inteligência artificial, que tanto pode banalizar a produção pictórica como levantar questões sobre a especificidade da criatividade como algo intrínseco ao humano.



terça-feira, 29 de setembro de 2026

The Art of David Em: 100 Computer Paintings


David Em (1988). The Art of David Em: 100 Computer Paintings. Nova Iorque: Harry N. Abrams.

Um daqueles achados inesperados de alfarrabista, quando andava a esgravatar as estantes da Castro e Silva em busca de um livro para oferta. Nos dias em que discutimos a artificialidade das imagens geradas por IA, se são arte ou apenas slop, se os processos artísticos têm de ser exclusivamente manuais ou podemos usar a automatização do digital para criar arte, é intrigante ler este livro. A minha resposta a esta questão é sim, claro, mesmo sabendo todo o oportunismo e o dilúvio de má qualidade estética que as ferramentas de IA estão a trazer quando usadas por pessoas sem sentido estético, conceito de expressão,  vontade de martelar conteúdos para inundar redes e com isso ganhar uns trocos fáceis. 

Esta questão da tecnologia e arte não é nova. Embora sempre algo desdenhada pelo mainstream, a arte digital tem-se vindo a impor como meio de expressão com linguagens próprias, e já há muito que se percebeu que denunciar os meios digitais como a artificialidade de clicar num botão e gerar imagens é um falso mito. Como em toda a expressão artística que vale a pena ser analisada, conta a intencionalidade, a lógica da peça, os seus significados, a capacidade de exploração de novas estéticas. Algo que me parece ser tão verdade para o digital como para os meios ditos tradicionais. Se tal não fosse, nunca teríamos dado o passo do pináculo da arte realista no final do século XIX para as novas fronteiras estéticas, e a nossa vida artística seria uma infinda estética belle époque. Há quem admire isso, dado que estes realismos são mais confortáveis ao olhar e ao cérebro do que a evolução das vagas de vanguardas estéticas.

David Em foi um dos pioneiros do uso do computador enquanto pincel, tendo-se dedicado a explorar as possibilidades estéticas nos tempos onde só trabalhando em colaboração com laboratórios de investigação se poderia ter acesso a meios computacionais, quer de hardware quer de software, na então incipiente computação gráfica. O experimentalismo visual é enorme, longe do formalismo quase robótico e matemático que costumamos associar aos primórdios da arte digital. A paleta de cores é explosiva, imperam os plasmas e as texturas arrojadas, muito longe do figurativo. As obras são dos anos 70 e 80, refletindo as limitações técnicas do hardware da época, e sublinhando o lado de exploração de novas fronteiras. 

Um dos elementos que me atraiu o olhar para este livro foi ter lido, recentemente, um perfil de Em, detalhando o seu percurso artístico. Hoje, aderiu entusiástico à IA generativa, mantendo o mesmo espírito de experimentação livre e exploração do potencial dos pinceis digitais.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Wirecam

 
















Fotos diferentes, produzidas com ajuda de inteligência artificial. Não foram geradas, usei uma app programada com vibe coding para chegar aqui. E, se quiserem experimentar, cá está: Wirecam. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

lugar - depois


Finalmente, tempo para ir visitar o  Museu Zero, espaço dedicado à arte contemporânea digital, em Santa Catarina da Fonte do Bispo. O projecto é muito interessante, cruzando a cultura contemporânea com o vitalizar dos espaços locais. já o conhecia de apresentações no Goethe Institut e Festival Inércia, mas ainda não tinha tido oportunidade de o visitar. Diga-se que só mesmo um projecto destes para me fazer ir ao Algarve. 








Em exposição, encontramos Lugar Depois, com um conjunto de obras multimédia que reflectem sobre as geografias do Alentejo e Algarve. Obras provocadoras, apesar de algo académicas, que vale a pena ir visitar. 


@archizer0 #museuzero ♬ som original - Artur Coelho 🇵🇹

Fica a  faltar um acervo permanente visitável de obras de arte digital, para além das exposições temporárias. Enriqueceria o espaço cultural (e, tanto quanto sei, por cá nem há coleções permanentes de arte digital, mas posso estar enganado), dando-nos razões para regressar a um espaço que fica muito fora de mão, mas vale bem fazer os quilómetros todos de ida e volta para o conhecer o museu. Resta ficar atento à programação, para ver quando regressar. 

Não posso deixar de referir a simpatia das pessoas do  museu. O silo onde se situa é, em si, um tesouro arquitetónico, e a ajuda das assistentes é excelente para navegar no seu espaço interior.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Jeffthielmusk®

Recordam-se dos tempos em que o futuro era visto como positivo? Em que a possibilidade de viver em O'Neills orbitais era excitante, e dar os primeiros passos na superfície marciana a aspiração de esperança numa humanidade que se espalha pelo espaço, construíndo novas utopias tecnológicas e científicas?

Pois, entretanto apareceram os bilionários, os tech bros e os lordes de sillicon valley. E os sonhos foram corrompidos, como fantasias escapistas de bilionários que querem isolamento luxuoso da destruição que provocam, ou utopias de capitalismo terminal onde tudo se compra  e vende, e quem não tem meios não merece existir. As consequências humanas e ecológicas, que se danem.


Como é habitual nas performances dos Zabra, há imenso para reflectir num espectáculo de estética apurada, que cruza o olhar crítico para a tecnologia e aqueles que a dominam. Se a tecnologia nos aliena e nos transforma em matéria a ser explorada, fruto do seu desvirtuar, projetos como este mostram o poder de nos apropriarmos dela. 

Eu, que devorei Asimov, Clarke, Dick, Bradbury  e companhia, ainda não deixei de acreditar num futuro melhor. Mas está cada vez mais difícil, e compreendo que novas gerações que só tenham conhecido crises económicas sucessivas e estão a levar com as alterações climáticas, não se sintam tão otimistas. O mundo em que cresci tinha esperança no futuro. Hoje, o futurismo foi detur 

A performance Jeffthielmusk® este na galeria ZABRA - Posthuman Art Research Center, entre 24 a 26 de julho, e é de não perder. Originalmente estreada no GNRation, esperemos que regresse ao espaço deste projeto artístico.