Nieves Delgado (2017). 36. Cádiz: Editorial Cerbero.
Uma intrigante visão sobre o que significa a inteligência artificial, sob a lente da ficção científica espanhola. Em 36, a IA torna-se consciente um pouco por acidente. Num toque de humor surreal, a manifestação de sentiência dá-se num sistema de controle de produtos de uma cadeia de supermercados, que começa a fazer sugestões em tempo real aos clientes. Parte daqui um projeto social de criação de IAs conscientes, que não corre como o esperado.
Apesar deste toque de humor inicial, a história segue caminhos mais profundos, de meditação sobre o significado de consciência, especulando se uma consciência não-humana teria reais razões para respeitar os modos de pensamento da humanidade que a criou. É aqui que surge 36, na verdade a trigésima sexta IA a ser criada e incorporada, e que logo se distingue das anteriores por demonstrar algum interesse em falar com os humanos. No mundo do livro, é um projeto de investigação que gera as IAs conscientes e as decanta em corpos-simulacro de humanos, em fases de aculturação. As IAs incorporadas começam por ter corpos de criança e adolescente, até serem consideradas aptas para ter uma forma adulta. Os corpos simulam com eficácia as sensações humanas, mas depressa se percebe que as IAs não estão muito interessadas nisso. São, até, muito apáticas, contentes em assumir papéis sociais menores, afastando-se progressivamente da humanidade que as criou até, num ato de aparente suicídio, se desligarem. Aqui, o romance dá-nos um vislumbre de fascinantes possibilidades ao mostrar-nos que estas IAs não se desligam realmente, apenas abandonam os corpos humanóides, mas não explora mais essa vertente.
Ficam no ar muitas questões. O porquê da apatia das super-inteligências face aos seus criadores, a legitimidade de investir recursos na criação de instrumentos que não se mostram interessados em ser utilitários (note-se que este livro foi escrito antes da explosão da IA generativa, uma tecnologia que quanto mais se desenvolve mais se percebe que serve para muito pouco, mal grado os oceanos de dinheiro que estão a ser despejados no seu desenvolvimento), se uma entidade artificial pode ou deve ter os mesmos direitos que um humano biológico. A leitura é interessante, intrigante, e reflexiva, com um ponto de vista algo fatalista que nos recorda que não há qualquer razão para que uma entidade consciente artificial se reveja nos nossos pressupostos sociais e culturais.