André Tagorelle (1959). Mandraka e os seus robots. Lisboa: Mãos de Fada.
Ah, as delícias da FC pulp descartável clássica. Há razões para estas obras se tornarem facilmente esquecidas, quando muito recordam-se como entradas em listagens editoriais (como, por exemplo, a FC Lusa) de autores igualmente esquecidos. Não surpreende, era obras escritas a metro, sem grande cuidado, apenas para encher páginas. Foram o nível mais baixo da FC enquanto mero entretenimento, o nicho agora preenchido pelas séries banais ou vídeos meio-ai slop das redes digitais.
Não há muito gosto nesta leitura, fi-la por curiosidade e referência. A história é de aventura pura, num distante Plutão habitado por seres implausíveis, entre homens-peixe, criaturas capazes de dominar monstros em montanhas e construir robots inteligentes, homens-polvo que apascentam ovelhas ou criaturas de gelo. Poderia ser weird, mas não o chega a ser. O tom é de aventura, naquela clássica estrutura de aventureiros humanos de personalidade expansiva e legalidade duvidosa, cuja coragem e engenho salvam os nativos dos piores perigos. Há monstros destruidores, zombies alienígenas, robots sentimentais, fungos venenosos e até uma princesa piscícola para apimentar a coisa.
É a isto que se chama má FC, produzida a metro por escritores que se ocultavam sob pseudónimos. Um resquício de outros tempos, onde a leitura era um dos grandes modos de entretenimento, em conjunto com a rádio e em menor medida o cinema. A chegada da televisão, a explosão do vídeo e o alastrar da internet quase fizeram esquecer esta forma de literatura como mero entretenimento de baixo esforço intelectual. E, no entanto, foi entretenimento que fez sonhar outras gerações.