quinta-feira, 2 de abril de 2026

I Am AI

Ai Jiang (2023). I Am AI.  Shortwave media.

Nas discussões especulativas (e não só), quando se fala sobre os perigos da IA, há um que é por demais evidente - a apropriação desta tecnologia por parte do capitalismo selvagem, que a usa para extrair o máximo de valor com um mínimo de qualidade, aproveitando para automatizar o mais possível processos laborais, não em nome da qualidade mas sim para se livrarem do ónus dos trabalhadores. A IA é uma tecnologia fascinante, com o potencial de amplificar as capacidade das pessoas, mas nesta ótica, torna-se numa ferramenta de opressão e empobrecimento social e cultural.

Estas reflexões espelham a leitura deste brilhante e tocante I am AI. Uma história de futuro próximo, onde a vida económica é dominada por uma megacorporação que descarta pessoas conforme as usa. Há a sociedade da distante e próspera cidade, e o enorme enxame dos bairros de lata, daqueles que caíram do sistema, embora a fuga total não seja possível, uma vez que todos estão carregados com dívidas hereditárias que têm de trabalhar para pagar.

No meio desta precariedade, acompanhamos uma cyborg, que vai substituindo partes do corpo por elementos cibernéticos. Sobrevive no limiar de ser mecanizada, e com isso ter uma capacidade produtiva superior à humana, mas ainda manter uma humanidade suficiente para que o seu output mantenha cunho individual e se afaste da mediania das produções das IAs que dominam os mercados. Uma história curta e tocante, sobre a essência da imaginação humana, o sonho das capacidades aumentadas, e a distopia de mundos subjugados aos interesses económicos.