Manuel Moreno, Jordi José (2016). A Ciência na Ficção Científica. Lisboa: Atlântico Press.
A ficção científica é um género com muitas vertentes. Tanto pode ser a algo pateta mas divertida história de aventuras no espaço/cobóiadas com monstros de olhos esbugalhados, extrapolação de tendências tecnológicas e sociais, experiência de imaginário tecnológico e futurista, ou puro experimentalismo especulativo. A sua ligação à ciência é conhecida (bem, começa logo no nome, mas a relação é profunda e bilateral), e uma das simplificações que os não iniciados no género costumam fazer é o de a considerar como preditiva em termos científicos e tecnológicos, o que é um erro. O género nunca foi oracular, exceto na imaginação popular, e alguns autores cultivaram deliberadamente essa visão como forma de ganhar dinheiro. Por isso, não surpreende que quando se analisa a FC à luz dos constragimentos científicos o género saia a perder.
Não ajuda o destratamento que lhe é dado no lado mais pop do género, no cinema e comics. Como fã da FC literária, já me habituei à necessidade de desligar o cérebro se for ao cinema ver um filme apontado como de FC. Não por acaso, a esmagadora maioria dos atropelos, inconsistências e impossiiblidades gritantes vem do cinema, onde a necessidade de espetáculo fácil para agradar às massas se sobrepõe à seriedade lógica e narrativa. Nos comics, particularmente os de super-heróis, a coisa é muito pior. Como seria de esperar, claro está.
Então, se a FC atropela tanto a ciência que lhe está no adn, para quê lê-la e respeitá-la como género? Bem, por um lado por ser divertida. A FC que é tão maltratada nestas coisas não deixa de proporcionar alguns momentos divertidos. Mas se queremos levar a coisa mais a sério, não é nas expressões de massa que se encontra a FC para que vale a pena olhar. Há autores que nos levam em brilhantes voos especulativos, fascinantes construções conceptuais, em obras onde a reflexão sobre impactos sociológicos da ciência e tecnologia são extrapoladas sob a lente do imaginário do género.
Na verdade, não lemos ficção científica porque queremos prever o futuro ou aprender ciência. Para um, basta ir a Delfos perguntar à pitonisa, e para outro, bem, é para isso que servem os sistemas educativos. Mergulhamos na FC porque queremos sonhar com possibilidades e potenciais, extrapolando do nosso conhecimento sob a lente do imaginário.