Adrian Tchaikovsky (2025). Shroud. Nova Iorque: Tor.
Uma das grandes preocupações visíveis na obra de Adrian Tchaikovsky está no explorar o conceito de inteligência não humana. Algo que fez muito bem na série Children of Time, com as formas de vida inteligente evoluídas nas condições únicas dos seus planetas a partir de um princípio de engenharia genética humana, abandonado no passado. Em Shroud, o autor pega nas ideias sobre formas de vida inteligente adaptadas a condições naturais muito agrestes e leva-as ao seu extremo, de uma forma peculiar e brilhante.
Outra das grandes preocupações que se percebem na obra deste escritor prende-se com o papel dos indivíduos que, apesar de protagonistas, têm pouca capacidade de decisão por estarem envolvidos em sistemas complexos que determinam as suas ações. E neste livro, o sistema é uma caricatura pouco velada dos excessos do capitalismo neoliberal, um sistema de expansão constante onde as pessoas só são úteis enquanto trabalhadoras dedicadas mas descartáveis a cada novo projeto, e a exploração do espaço serve apenas para extração de recursos que permita manter o sistema em constante crescimento.
A distopia é pura, embora os personagens não a questionem. Afinal, é o sistema que sempre conheceram, para o qual foram doutrinados e sempre conceberam como o natural e lógico. Um sistema que afirma ter salvo a humanidade da destruição após o colapso ecológico da Terra, através da expansão contínua pelo espaço numa lógica de extração crescente de recursos.
Shroud representa uma pedra na engrenagem de expansão. Um ambiente incrivelmente inóspito, mas que alberga vida. Formas de vida que evoluíram em condições de pressão atmosférica tremendas e escuridão total, que se adaptaram à emissão de ondas eletromagnéticas como forma de sentir o mundo ao seu redor. Um ecossistema de criaturas cegas e surdas, que vivem no que para os humanos é uma cacofonia de radiação eletromagnética.
A descoberta mais surpreendente dá-se na superfície do planeta, quando um grupo de investigadores que sobrevive a um acidente em órbita se vê obrigado a um périplo de sobrevivência duvidosa. Por entre as violentas formas de vida, descobrem uma que mostra sinais de inteligência e sociedade organizada, algo similar às formigas. Algo que se virá a perceber como uma inteligência distribuída em enxame, que usa cada indivíduo como neurónio e com capacidades de adaptação biomecânica. Duas inteligências, a humana e a nativa do planeta, totalmente incompatíveis e sem forma de comunicar entre si. Num pormenor muito curioso, Tchaikovsky descreve como a vida alienígena consegue compreender as máquinas humanas, mas é incapaz de sequer reconhecer a vida humana que as tripula.
Mas descobrir vida inteligente não representa um obstáculo para a estratégia organizacional. Pelo contrário, é até vista como mais um recurso para explorar. O problema, é que o contacto com os humanos abre novas perspetivas à inteligência alienígena, com resultados catastróficos, até que a coragem de uma das investigadoras sobreviventes permite encontrar uma forma de comunicação comum. Um livro intrigante, sombrio, aviso distópico sobre os excessos do capitalismo, e reflexão sobre a complexidade da intercompreensão.