terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Corpo de Cristo


Bea Lema (2025). Corpo de Cristo. Lisboa: Iguana.

Cruzei-me com este livro na exposição que lhe foi dedicada no festival Amadora BD e, confesso, fiquei com a impressão errada que todo o livro teria sido bordado e não desenhado. Foi esse o primeiro ponto de atração desta obra, a curiosidade de um inusitado tipo de ilustração. O outro ponto estava na forma como a iconografia naif da religiosidade espanhola surgia entre os bordados. Pensei que se tratasse de um livro sobre tradições e costumes, mas, novamente, estava engando. 

As tradições e os costumes fazem parte do substrato deste livro, mas o seu grande tema é a coexistência com doenças mentais. Numa história autobiográfica tocante, a autora conta o que foi crescer e viver com os transtornos e delíríos da sua mãe, cuja esquizofrenia foi despoletada por uma combinação de traumas do passado e inadaptação no regresso a Espanha após uma temporada como emigrada. Há uma sublimação da tradição, interpretada pelos bordados da ilustração, também uma referência a um dos talentos da sua mãe. O estilo gráfico é fortemente pessoal, a tocar no naif, embora com um rigor de composição e cor que se equilibra bem com a expressão do traço. As pranchas bordadas são a grande surpresa do livro, por vezes a recordar bordados infantis, outras complexos ex-votos cheios de referências tradicionais. 

Um livro que enche o olhar, e desafia a meditar no cruzamento entre a fragilidade da mente humana, as crenças arreigadas das tradições e os traumas de um passado de pobreza que, na Galiza tal como por cá, caracterizou o nosso passado recente.