quinta-feira, 26 de julho de 2018

New Dark Age: Technology and the End of the Future



James Bridle (2018). New Dark Age: Technology and the End of the Future. Londres: Verso.

Como é que chegámos ao corrente estado das coisas? Recordo bem a visão optimista que tínhamos do mundo digital, na viragem do século. Exageros utópicos à parte (havia quem visse nos bits a promessa de transcendência das limitações humanas), o consenso geral era o de que as tecnologias digitais iriam ser fundamentais no alargar da prosperidade, promovendo uma maior igualdade, liberdades individuais e uma sociedade, em geral, mais esclarecida. Pouco mais de década e meia depois, assistimos, amargos, ao oposto. Os fossos económicos agudizam-se, a prosperidade flui apenas da direção dos um percentistas, os regimes autoritários não só não desapareceram como se reforçaram, a liberdade de expressão trazida por uma das grandes qualidades da internet, o dar voz a cada utilizador, esmagou-se na polarização das bolhas informacionais, reforço de enviesamento cognitivo. Do acesso livre a fontes de informação, passámos às fake news.

Descobrimos que os estados democráticos do ocidente mantém na sombra vastas burocracias, alicerçadas na tecnologia, capazes de exercer níveis de vigilância sobre o indivíduo que seriam o sonho húmido dos agentes da stasi, SS ou KGB, nos maus velhos tempos dos totalitarismos do século XX. Sentimo-nos cada vez mais presos num mundo automatizado, gerido e controlado por algoritmos opacos, interagimos através de interfaces que requerem que sejamos nós a habituar-nos a eles, essencialmente mudando a forma como pensamos para se ajustar às necessidades do algoritmo.

Fica no ar a pergunta: como é que esta merda aconteceu? A sociedade da informação e do conhecimento, supostamente, seria um passo na evolução e progresso. Information will set us free era o espírito dos anos 90 do século XX. No XXI, as vastas quantidades de informação alimentam algoritmos avançados que determinam as nossas ações, com os quais interagimos sem nos apercebermos da forma discreta como alteram a maneira como pensamos. A revolução da sociedade da informação foi tornada refém de mega-corporações e interesses políticos sombrios. A dezoito anos num século que supostamente seria de progresso inimitável, o que sentimos é uma regressão profunda nas estruturas que sustentam a sociedade.

James Bridle não é um conspiracy nut qualquer. Despertou as atenções com o longo projeto artístico The New Aesthetic, um tumblr que coligia as interações inesperadas potenciadas pela tecnologia, entre a forma como os robots vêem o mundo que os rodeia à influencia dos algoritmos do dia a dia das pessoas. O seu New Dark Age disseca de forma arrepiante a derrocada dos sonhos utopistas dos bons velhos tempos da sociedade digital, sem se atrever a dar-nos pistas de como podemos reverter o estado das coisas. O livro é, em essência, um catálogo catastrofista, uma crónica do esmagar do optimismo e do vergar do zeitgeist global ao que Bridle apelida de pensamento computacional: a adaptação do indivíduo e da sociedade às exigências opacas de algoritmos concebidos de forma pouco transparente, pelos vencedores das economias assimétricas do mundo digital.

Aqui, o professor que há em mim faz um parentesis. Lidamos em educação com o conceito de pensamento computacional, essencialmente uma nova forma de literacia digital. Em parte, estrutura a lógica do algoritmo como forma de estruturar pensamento nas crianças. Bridle aplica o conceito (duvido seriamente que se tenha apercebido desta tendência na pedagogia) no sentido redutor, de submissão social e conceptual aos requisitos da lógica computacional.

Este livro, de leitura imparável, não nos deixa tranquilos. Bridle é um daqueles poucos comentadores contemporâneos capazes de ver ligações intrínsecas entre factos aparentemente sem ligação entre si, tal como Geoff Manaugh ou Yuval Harari, outros cuja leitura dos seus textos nos provoca e muda a forma de pensar. Bridle é imparável na forma como associa a regressão social e progresso tecnológico, apontando para um futuro deprimente. Uma dark age, de maravilhas tecnológicas e vastas quantidades de informação, de desagregação social e retrocesso político, controlado por interesses económicos e vigiado por agentes na sombra. No fundo, um retrato da distopia em que sentimos viver sempre que assistimos a um telejornal.

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