sexta-feira, 23 de março de 2018

Acadie

 
Dave Hutchinson (2017). Acadie. Nova Iorque: TOR.

É raro um livro de FC nos apanhar de surpresa. Especialmente quando se trata de Space Opera. Este é um desses. Somos mergulhados num vórtice literário, num mundo ficcional típico do género. Estamos num futuro profundo, a humanidade espalha-se pela galáxia, e seguimos um grupo de renegados que quebram os grilhões legais da pesquisa genética para criar humanos geneticamente melhorados. Perseguidos pelas autoridades terrestres, constroem a sua utopia em sistemas solares considerados inválidos para colonização pelo gabinete que gere a expansão humana. Aí criam estações avançadas, com pessoas fortemente modificadas, mais inteligentes do que o humano-base, desenvolvendo tecnologias avançadas que mantém em segredo de uma humanidade que os persegue.

Ou então nada disto é assim. Estes renegados são perseguidos por crimes que cometeram, especialmente na manipulação genética forçada de colonos em naves capturadas, e os resultados são abominações físicas e anormalidades. A sua tecnologia é falível e primitiva, mas violenta, e tudo o que as autoridades querem é capturar os criminosos e salvar aqueles que caíram nas suas garras.

Seguimos a história pelo ponto de vista de um dos renegados, encarregue de ficar trás e eliminar os vestígios de tecnologia de uma zona prestes a ser capturada pelas autoridades, cobrindo a fuga da colónia. Ao seu olhar, este é um mundo de perfeição pós-humana, um sonho futurista de libertação genética e tecnologia avançada. Mas a sua perceção será desafiada pela interação com uma sonda das autoridades terrestres, que lhe revela o seu ponto de vista, intuindo que aquilo que para ele é a primeira vez, para os tripulantes da sonda é um acontecimento recorrente. Talvez ele seja uma inteligência artificial convencida que é um ser humano, incapaz de percecionar a realidade tal como ela é.

Este livro é deliciosamente curto e inconclusivo. Apetece ler mais, mas ainda bem que se mantém conciso. Onde outros escritores optariam por criar sagas em multi-volumes de calhamaços de páginas, esmifrando os mais ínfimos pormenores, Hutchinson mantém a história ao nível de rascunho bem definido. O resultado é um elevado nível de narrativa cativante, que provoca a mente do leitor a ir mais longe, imaginar os detalhes que faltam. Uma experiência literária mais imersiva do que o detalhar pormenorizado do mundo ficcional.

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