sexta-feira, 7 de julho de 2017

Ronin



Frank Miller (2017). Ronin. Lisboa: Levoir.

Esta edição portuguesa do clássico de Frank Miller ficará marcada pelo divertido erro tipográfico que trocou o título na lombada do livro. De Ronin passámos a Ronnie. É um erro, coisas que acontecem. Alguns fãs ficaram revoltados com o facto, já este fã sorri, divertido, com esta marca que torna a edição muito distinta. A editora envia auto-colantes e distribui capas externas para quem for mais perfecionista e se importar muito com o erro.

Ronin, originalmente publicada em 1983, foi a afirmação de Miller como autor no mundo dos comics. Já o estava a fazer quer como argumentista quer desenhador em Daredevil, mas é nesta obra que desenvolve o seu estilo gráfico e narrativo. A influência dos mangá é patente, quer na temática quer, de forma espantosa, no traço e na gramática visual. Miller colide ficção científica e tradição nipónica numa Nova Iorque decadente, onde a inteligência artificial que controla um mega-conglomerado invoca o imaginário dos samurai para se autonomizar e gerar vida artificial. O que começa como um romance de samurai vindo do passado acaba por se revelar uma ilusão potenciada por tecnologia, com um final devidamente catastrófico.

Ronin marca pela forma como levou, à época, mais longe os limites dos comics, abrindo-os a influências estéticas vindas de outras vertentes da banda desenhada. A carreira de Frank Miller ficou pontuada por momentos similares, com a inovação gráfica e narrativa de The Dark Knight Returns, ou o choque visual de Sin City. Apesar do resvalo do autor para um tipo de histórias fortemente xenófobas e carregadas de conservadorismo violento, algo que já se sentia em Dark Knight e Sin City, mas diluía-se na narrativa, enquanto Holy Terror, de 2011, é incrivelmente panfletário e racista, Miller continua um nome de referência no mundo dos comics, ilustrador de traço provocador e mestre na narrativa gráfica. Uma grande edição da Levoir, no âmbito daquela que é já uma coleção de referência, a Novelas Gráficas, que traduz para português este clássico dos comics.

2 comentários:

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

«Apesar do resvalo do autor para um tipo de histórias fortemente xenófobas e carregadas de conservadorismo violento, algo que já se sentia em Dark Knight e Sin City, mas diluía-se na narrativa, enquanto Holy Terror, de 2011, é incrivelmente panfletário e racista, Miller continua um nome de referência no mundo dos comics, ilustrador de traço provocador e mestre na narrativa gráfica.»

Será possível que neste espaço se refira um dos maiores artistas contemporâneos sem se recorrer, além de a preconceitos ideológicos, também a mentiras, a calúnias? Aparentemente, não...

artur coelho disse...

hã... leu o holy terror, certo? mesmo que se leia esse livro com lentes muito endireitadas, aquilo é ranzinza. se vai levar a discussão para campos ideológicos, diria que é direita no seu pior, a usar o conservadorismo como capa para poder libertar pulsões sexuais e xenófobas primitivas.