sexta-feira, 4 de novembro de 2016

To Your Scattered Bodies Go



Philip José Farmer (1998). To Your Scattered Bodies Go. Nova Iorque: Del Rey.

Quando o explorador e orientalista Richard Burton acorda nas margens de um vasto rio, nasce um estranho mistério. A sua última recordação era do seu leito de morte, e agora descobre-se nu e desprovido de pilosidades, nas planícies que ladeiam um rio interminável. Não é caso único. Parece que a toda a humanidade foi concedida uma ressurreição nas margens deste rio planetário. Intrigado, com o seu sentido de explorador aguçado, Burton parte à descoberta dos segredos deste estranho mundo novo, onde a morte é sempre seguida de ressurreição, as necessidades básicas são satisfeitas por dispositivos individuais que, todas as noites, dão acesso a comida, e toda a humanidade, desde a pré-história ao futuro, com alienígenas à mistura, parece ter direito a uma segunda oportunidade.

Parte do romance foca-se na adaptação ao novo estado das coisas. Esta ressurreição, claramente não divina mas tecnológica, despeja milhões de humanos nus e indefesos numa terra aprazível. Depressa se começam a organizar em grupos, depressa regressam as velhas pulsões da violência. Burton irá organizar um grupo seu com um intelectual americano do século XX que, seu fã, lhe conhece a biografia melhor que o próprio Burton, um neandertal, um sobrevivente de campos de concentração que despreza o anti-semitismo de alguns livros de Burton, e uma dona de casa aristocrata vitoriana que se revelará ser a Alice que inspirou Lewis Carroll.

Estabelecido o mundo ficcional, o livro segue os caminhos de romance-périplo, com o grupo a navegar rio acima, cruzando - se com outros grupos de sobreviventes que formam novos países e civilizações. Boa parte delas assente na opressão e esclavagismo. Entram aqui personagens como Lord Greystoke, não esse Greystoke mas um seu antepassado medieval, ou o abominável Herman Goering, que terá um curioso destino redentor. Um pormenor curioso com que os exploradores se vão deparando é que cada grupo é composto em grande parte por uma etnia, com outra preponderante, ambas cronologicamente similares, e uma percentagem aleatória de humanos de outras etnias e séculos. Os humanos do século XX, a época mais profícua da humanidade espalham - se por entre todos os grupos..

O grande objectivo de Burton é descobrir os segredos que alicerçam aquela estranha ressurreição no que não é o final dos tempos. Inevitavelmente, entre aventuras sangrentas e mortes que levam à ressurreição, encontrar-se-á com os criadores do mundo, seres imortais de origem humana que decidiram usar os seus recursos técnicos para ressuscitar toda a humanidade como uma vasta experiência científica. E, também, mística, tornando-se claro que os ciclos de morte e ressurreição, bem como uma droga alucinatória que é distribuída ao todos, destinam-se a provocar redencões individuais, talvez induzindo no que consideram com carinho seres inferiores uma transcendência só acessível a alguns dos imortais.

Religião, ficção científica e aventura misturam-se neste que, publicado originalmente em 1971, é o primeiro livro de uma saga onde Farmer mistura personagens reais e ficcionais, usando o mundo do rio como palco. Intriga pela sua premissa, de misticismo assente na tecnologia e futurismo distante. A ideia que pós-humanos de um futuro distante usem a sua tecnologia incompreensível de tão avançada para arcarem o manto das divindades de religiões que prometem uma vida após a morte como parte de uma experiência científica é capaz de chocar os mais sensíveis aos ditames de crenças religiosas.

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