domingo, 6 de março de 2016

Vertigem futurista

 
O relógio indica que o dia cronológico está a chegar ao final, mas ainda faltam muitos quilómetros para o meu dia terminar. Acabei de passar naquela estranha zona da A1 onde o olhar dos automobilistas é protegido da visão de subúrbios de urbanismo agressivo por taipais de metal. Como no filme Brazil de Terry Gilliam, mas sem a omnipresença de falsas visões de propaganda bucólica a ocultar o território devastado. Cai uma chuva suave, que deixa a atmosfera cristalina. É noite, nítida entre a luz do luar, faróis na autoestrada e luzes urbanas.

A busca incessante por algo interessante na rádio detém-se na Antena 2. Ouvia-se no programa Argonauta o ritmo mecânico de Kraftwerk, interrompido pela voz monocórdica de um locutor que ia declamando palavras-chave. Automação, mecanização, homem-máquina, era atómica, todas aquelas metáforas que nos vêem à mente quando ouvimos o som frio e abstracto destes músicos de excepção. O timbre cyberpunk cristalino parecia uma versão robotizada de Marinetti a declamar a supremacia do automóvel e da metralhadora sobre a vitória de Samotrácia.

A vertigem do futurismo digital é uma versão abstracta da velocidade dos velhos futuristas do início do século XX. Se bem que Kraftwerk me deixa sempre a pensar noutros futuristas, os do construtivismo russo, utopistas de uma nova sociedade cuja promessa revolucionária decaiu na repressão estalinista. Não tanto em Malevich e na sua elaborada piada do quadrado de um negro puro, cujos pigmentos se degradam e a superfície rachou com o passar do tempo. Talvez Anish Kapoor, que encomendou o pigmento negro mais absoluto que se conhece a uma empresa de nanomateriais, recrie esse marco do abstraccionismo de forma mais permanente. Aguentarão os nano-pigmentos produzidos pela ciência do século XXI a passagem do tempo de forma mais resiliente do que os pigmentos criados pela vanguarda da química nos primórdios do século XX? Se parecer muito futurista um artista encomendar um pigmento o mais puro possível, recordem que Man Ray telefonava para metalomecânicas, dando instruções detalhadas para manufactura das suas esculturas. O futurismo de hoje, na sua essência, é muito igual ao futurismo do passado.

O visual de Kraftwerk está mais no rigor das geometrias dinâmicas de Lissitzky, com as suas coloridas trajectórias suspensas no espaço. Ao som de Kraftwerk, começamos a ver o mundo como uma abstracção, como uma gigantesca sala proun.

Foi um momento apropriado para os ouvir. Na autoestrada de faixas múltiplas a espraiar-se na distância, sobre o asfalto a luzir com a chuva, por entre a vias sobrepostas dos nós rodoviários, o sprawl de fábricas e centros de transportadoras com os seus camiões TIR alinhados nos parques, à distância os perfis e as luzes da central termoeléctrica raiada de cabos de alta tensão por onde fluem electrões. Paisagem adormecida que estou a atravessar, confortável, controlando dentro do seu útero metálico  a trajectória da minha máquina automóvel. Futurismo e hipermodernidade, e é impossível não pensar nas arquitecturas modernistas que afectam a alma dos personagens da ficção de J.G. Ballard. São nestes momentos de silêncio que se sente o seu pulsar. Um "diálogo criativo entre o passado visionário e um futuro nostálgico", ouço no rádio.

Passei a tarde num encontro de professores de TIC, em partilha de práticas, a reflecti e aprender. Tecnologia, futuro, impactos, educação, preparar para o futuro, eram as palavras que andavam no ar. Por entre as preocupações dos profissionais no terreno e a hipérbole optimista que traz aquele brilho aos olhos de quem lida com tecnologia. Há sempre a promessa de ir mais além e, como foi referido por um dos intervenientes, o futuro prometido pela tecnologia acontecerá sempre daqui a quinze anos. Vinte, diz Bruce Sterling.

Saí de lá com vontade de  ler o manifesto futurista, de 1909, para perceber se aquela sensação que se sente hoje de vertigem promissora quando falamos de tecnologia é a mesma que foi intuída pelos artistas no dealbar da moderna era industrial. Vertigem que se sente mesmo na educação, sempre clássica e conservadora, lenta a adoptar futuros. E talvez ainda bem que assim o seja, como reflectiu António Rodrigues num recente encontro sobre projectos com tablets e drones na educação organizado em Leiria pelo Centro de Competências Entre Mar e Serra. Referia que é benéfico que a escola seja conservadora e lenta nas mudanças, porque o seu papel fundamental é o transmitir o legado e conhecimento para as gerações futuras. O que não significa que não se abra às mudanças induzidas pela tecnologia, sublinhou. É uma visão sóbria, que responde a este estranho paradoxo sentido pelos professores envolvidos em iniciativas de introdução de tecnologia nas escolas, e com a qual é impossível não concordar. Recordem o ímpeto futurista: mudança radical que rejeita o legado do passado.

O dia ainda reservava uma boa surpresa, na forma de uma peça de teatro em exibição no Teatro Nacional Dona Maria II. Peça que em jeito de comédia brincava com ideias tão curiosas como o borgesianismo de mapas que se tornam territórios, sociedade panopticon, realidades fluídas, o real como possível representação virtual e glitches in the matrix. O argumento convoluto de Universos Paralelos partiu de uma bem arquitectada base de ficção especulativa. Ficam memoráveis as imagens que despertou de anónimos seguranças de uniforme, rodeados por uma gigantesca projecção que simulava um ecrã aglutinador de múltiplas câmaras de videovigilância.

Há um padrão nesta sequência de eventos.

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